Meu mundo ideal tem crianças nos faróis. Elas vendem balas, equilibram malabares - muitos com fogo - ou dançam ao som das buzinas tocadas nos carros dos motoristas mais apressados e tensos. Estas crianças vão para o farol no final da tarde, pois é o período de maior movimento e quando o ganho de algumas moedas pode ser mais que algumas. Não vão pela manhã porque estudam (e possuem bom aproveitamento escolar) e não varam a madrugada, pois vão para casa e dormem como crianças.
No meu mundo ideal as pessoas trabalham muito. A maioria sai de casa com a Lua sobre a cabeça e retornam na mesma situação depois de doze horas, no mínimo. O transporte coletivo é universal, portanto não prima pelo conforto e o trânsito enfurece todos (exceto as crianças nos faróis). Trabalha-se muito com ganho digno. As necessidades básicas são atendidas e bem bancadas, inclusive o transporte coletivo gratuito.
O mundo ideal, que é somente meu, tem noticiário policial na TV no horário das seis da tarde. As notícias estarrecem, o apresentador se exaspera na retórica e exige providências. Tais noticiários exibem operações policiais onde os bandidos são presos. Vemos imagens de julgamentos e sabemos de criminosos que são postos na rua após cumprirem pena na íntegra e se mostram recuperados, o que demonstra a eficiência do sistema prisional. Adoro assistir, no meu mundo ideal, o último bloco destes noticiários policiais, onde fazem a prestação de contas dos casos noticiados: todos resolvidos.
No meu mundo ideal os parques e bibliotecas públicas estão cheios de gente nos finais de semana. A diversão é ser feliz e não comprar e ter a roupa ou tênis de marca. Por sinal, no meu mundo ideal, se mede a beleza pela felicidade das pessoas, não pelo seus corpos.
Meu mundo ideal é assim: ruas cheias, shoppings com pessoas comprando e grades na janelas mais baixas. Ainda que de forma humilde - e a maioria é assim - todos tem teto, comida, agasalho, diversão e compram livros, pois o orçamento permite isto. Será que este mundo ideal é tão difícil?