terça-feira, 31 de março de 2015

Flores, cores e perfumes.

E as flores? Alguém com a retina cansada de cinza e o olfato cansado de fetidez perguntaria, de forma incisiva, diante de mais uma dificuldade imposta pela vida.

Tendemos ao cansaço por conta das dificuldades do cotidiano, dos obstáculos rotineiros. E somente os sobrehumanos não cansam. Não é simples você arquitetar uma trajetória e, por algo alheio a você e tua vontade, pegar desvio e ter que fazer tudo diferente do planejado, tudo contra princípios, hábitos, costumes... Tudo contra a tua natureza.

Para ficar mais dramático: geralmente tal desvio é pedregoso, íngreme e espinhoso. O desvio dilacera e marca teu corpo e tua alma. Não é fácil. Mas sendo o ser humano altamente adaptado as intempérie, acaba por se acostumar, se conformar, e segue em frente; na luta, mas resignado com os resultados.

Mas... E as flores? Respondo: não importa onde você esteja, como você esteja e o que esteja fazendo; as flores sempre estarão lá: a colorir e perfumar o dia. Existe uma grande chance de não encontrar tais flores no caminho, mas elas estarão sempre lá, dentro de você.

Colha as flores e distribua para as pessoas que ver pelo cinza do caminho. Ou melhor: plante estas flores pelo caminho e mostre para todos aquilo que você tem de mais colorido e perfumado. Você mesmo.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Ô trem chato isso, sô!

Fico pensando sobre a necessidade de se alinhar a direita ou esquerda, gostar da serra ou do mar, macaxeira ou caviar. Fico pensando nesta necessidade maluca que as pessoas tem de ter um lado numa pinimba, tomar partido numa contenda. É primordial rivalizar, mostrar-se pró ou contrário a uma tese, crença, time, comida, orientação...
"Trem chato isso, sô". Na segunda década do século XXI, onde muitos pensadores afirmaram que seria o renascimento da humanidade, é desagradável ver os povos necessitando ser de uma parte ou outra. A história esta aí para provar que isto não deu certo e nunca dará. Cadê o congraçamento, a união, a cooperação, a solidariedade. Estes sentimentos e ações serão impossíveis com o tomar partido.
Agora, mais sem nexo que o ato de partidarizar é a visão tacanha de se defender, com unhas e dentes, o seu lado com paixão doentia.
Já fui engajado. Quem me conhece sabe disso. Mas cansei por ver que tanto no céu quanto no inferno existem anjos e demônios, não sendo ninguém 100% bom ou ruim, certo ou errado, bonito ou feio.
Dicotomizar é acreditar num mundo que não existe. Criticar quem opta por não defender nada com paixão é ser maniqueísta e cego. Que eu tenha o direito de ser neutro.

domingo, 29 de março de 2015

A juventude e o bom dia.

Os jovens não dão bom dia. É estranho encontrar o pessoal nascido na segunda metade dos anos 80 para frente, desejar bom dia e receber um "oi", um " e ai?", um aceno de mão ou um sorriso. Tem dias de "ovo virado" que simplesmente não respondem.
Durante anos julguei isso como falta de educação. Achei que a humanidade havia alcançado a descivilização com esta geração Y: imediatista e forjada no construtivismo. Achei que todo sistema de educação, formal ou informal, havia fracassado e formado um povo xucro e deselegante, que faria ruir tudo de bom edificado até então. Ledo engano.
A juventude vigente é muito mais racional e antenada do que nós na mesma idade. Desejar bom dia para quem não tem o dia bom dentro de si é algo complexo. E outra: o que é bom dia para um pode ser péssimo ou espetacular dia para o outro. O bom dia é algo muito particular. E mais outra: o cartesianismo do bom dia - sua resposta única e com poucas variações de entonação - poderia caber outras respostas, que os jovens aceitam bem, mas que para os adultos soaria (ou soa) como falta de educação.
Por exemplos (diante do desejo de bom dia) caberiam coisas como "para mim não", " o meu está bom, espero que o seu também ", " meu dia nunca é bom"... 
O problema do bom dia é que, para a nossa geração, ele não é um desejo. Ele é um introdutório de uma conversa que pode não ser boa. Damos bom dia para desafetos, devedores, inimigos (muitas vezes não desejamos bom dia para os nossos)... Os jovens não são assim.
Por isso que, sempre que o condicionamento permite, eu venho aplicando a pergunta "vamos de bom dia?". Quem sabe assim o interlocutor aceita o convite.
Oi! E ai? Beleza? Vamos de bom dia então?

sábado, 28 de março de 2015

A escolha é sua.

Sair da cama é fácil. Você ouve o despertador, abre os olhos, arremessa as pernas para fora da cama, se põe de pé e encara o dia com suas tarefas.
Quem sai da cama todos os dias faz isto com um peso nos tornozelos, pois não é fácil abandonar o conforto e aconchego do leito. A partir desta saída o dia fica pesaroso e cansativo. O desejum, entremeado de bocejos, é escasso de sabor e desce na goela como arame farpado. A ida ao trabalho é desconfortável, o trabalho é enfadonho.
Mas o retorno para casa é feliz, pois jogará a carcaça na cama e descansará, mesmo saindo da cama mais cansado que no dia anterior.
Agora, diferente é quem acorda de manhã. Ao abrir os olhos, ao acordar, você faz força para colorir a vida. Não importa as dificuldades (que não sumiram durante o descanso), abre-se um sorriso e se declara um obrigado ao Criador pela volta a vida e se espreguiça alongando cada célula do corpo injetando ânimo para alegrar e ser alegre.
O café da manha sacia o espírito, a ida ao trabalho pode ser sofrida, mas a seara pesada fica suave e a volta para casa é lenitivo com sabor de missão cumprida. E, ao deitar ou a todo instante, se agradece a dádiva de estar vivo e se ausenta dela na esperança de revigorar o físico para a labuta que é existir.
E o mais bacana: a escolha é sua.
Você sai da cama ou acorda todas as manhãs?

Vamos dançar?

Já chamei muita gente pra dançar. Poucos aceitaram o convite. Primeiro porque tenho dois pés esquerdos, portanto sem habilidade para dança. Segundo por absoluto preconceito com minha estatura e forma física. Isto nunca me fez mal, até porque sempre tive coisas mais relevantes para me encanar do que ser inábil para dançar.
Mas me lembro da época que isso fazia diferença. Estava na quarta série e a turma - essencialmente formada por alunos repetentes e mais velhos - resolveu encerrar o semestre com um bailinho e a professora topou.
Lembro de passar a tarde inteira convidando as meninas para dançar. Do samba rock a lenta, foram incontáveis os nãos. Até a vassoura e a cadeira me negaram o prazer da dança.
No final da tarde me lembro da Regina  sentando do meu lado. Ela ria a valer do meu jeito e se admirou de mesmo sendo sistematicamente recusado, eu não ter desistido. Ela ficou num canto o baile todo, pois disse que não dançaria com ninguém no dia anterior.
Eu tinha quase 10. Ela quase 14... E nossas idéias dançaram como o casal mais hábil da gafieira. Descobri então que atitude é tudo, mesmo sem saber dançar.
E continuo convidando o povo para dançar desde então

Ver, ouvir, sentir.

Falar para quem tem ouvidos. Mostrar para quem enxerga.
Quem não ouve, mas consegue ver, vale o sacrifício de mostrar as montanhas e campinas, mares e desertos, florestas e cidades... Ainda que não ouça o rugido do mar, o som da queda da cascata, o cantar do passarinho. Valerá a pena, pois certamente o que ele vê renderá um sorriso.
Quem não vê, mas consegue ouvir, vale o sacrifício de levá-lo a mata para ouvir a algazarra da natureza. Levá-lo ao alto da serra para ouvir o murmúrio do vento. À cidade para ouvir o tropé do trânsito e o ruidoso comércio. Valerá a pena, pois certamente o que ele ouve renderá um sorriso.
Agora! E para a maioria? Maioria que não ouve e nem enxerga. Para estes só resta o perfume da flor, o vento batendo no rosto, a chuva molhando as vestes... E o sorriso no rosto.
Mas todos, sem excessão e mesmo mudos conseguem falar... E reclamam daquilo que tem para sorrir. Este é o ser humano: eterno insatisfeito.