"Mas você vai reclamar de novo da vida moderna e falar que o mundo está estranho?" Não. Tentarei não fazer isto. Não vou relatar causas ou consequências, afinal existem especialistas no tema que fazem isto infinitamente melhor que eu. Vou me ater aos fatos - alguns de minha vida, outros da vida alheia, outros da humanidade, para fazer uma auto reflexão sobre a doença do seculo XXI.
E já diziam isto da depressão antes do século XXI começar. Seja pela postergação do início da vida familiar, postergação do fim da vida, aumento da influência da tecnologia, aumento da renda per cápita da população mundial... Já ouço desde os meus 8 anos (auge dos anos 80) que nos 2000 a vida melhoraria, mas as pessoas estariam mais tristes. Tudo por conta da solidão.
As profecias estão confirmadas. O ser humano, apesar dos avanços nos grandes centros (e a maioria está nos grandes centros), tropeça um no outro e se sente convulsionalmente sozinho. A vida se desenvolve em legítimos formigueiros apinhados de humanos e a solidão impera.
Li num texto a pouco tempo que os jovens crescem acreditando que são especiais e acabam frustrados com a vida muito cedo. Frustrados e tristes por serem especiais e não atingirem o sucesso no final da terceira década de vida. Então OK: a criação recebida determina sua depressão aos trinta e poucos anos? Pode até ser. Mas, sendo o humano absolutamente capaz de se reinventar e se reiniciar a todo tempo, não é só isto que vem entristecendo o mundo.
Quem muito quer acaba não tendo e não sendo. O consumismo corrói as pessoas, deixando as mesmas vazias. É como fôssemos espelhos que não refletisse nada. Neste cenário onde eu sou aquilo que tenho surge a distimia.
A distimia é o humor rebaixado. Distímicos são pessoas que, mesmo estando bem humoradas, apresentam-se cabisbaixas e tristonhas. São pessoas que até se esforçam para sorrir, mas a gargalhada é absolutamente amarela. O portador de distimia acredita-se sem nada para mostrar, exatamente por acreditar nada possuir. Estou com um pé ainda neste grupo. Já foram os dois.
O mundo não está depressivo, falácia inventada pela indústria farmacêutica para vender a felicidade em drágeas e tônicos. O mundo está distímico e, para resolver isto, é preciso ter menos e ser mais.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Fazemos de Graça (parte III)
A relação entre os poderes no Brasil é algo absolutamente "sui generis". O Executivo é obrigado a manter um líder em seu nome no Legislativo (que é bi cameral, o que exige duas lideranças) para articular com todos os partidos a maioria, portanto, a governabilidade.
Quando esta liderança é ineficaz - ou falta a maioria no Legislativo - o jeito é lotear o governo entre os partidos para costurar esta maioria. Dai o ministro da Agricultura é um industrial, o da Educação é um engenheiro e o do Trabalho nunca leu nada sobre leis trabalhistas (ou sobre absolutamente nada). Pela governabilidade monta-se uma equipe de governo ingovernável.
Dai o partido que apóia o governo federal é oposição num estado e situação na edilidade da cidade mais importante. O deputado da oposição negocia verbas federais para os estados onde seu governo é situação e alinhado com a União. O prefeito não é do partido do governador do estado, mas é correligionário do presidente da República, o que permite que as verbas cheguem com fluidez no seu município enquanto o estado morre a míngua graças a falta de diálogo. São as coligações partidárias: fruto do único interesse de ter representação legislativa para o partido não sumir no limbo da falta de publicidade obrigatória de rádio e TV e sem financiamento do fundo público partidário.
Para encerrar: quem escolhe as pessoas que tem a responsabilidade de investigar e fiscalizar a lisura das ações dos poderes são eles mesmos. Ai é o cúmulo de ser jabuticaba e confiar a raposa a guarda do galinheiro.
Falam em reforma política. Só vai funcionar se a reforma começar no bom dia que se dá ao porteiro ou lixeiro. Fazemos de graça, mas precisamos de mais atenção com a política.
Quando esta liderança é ineficaz - ou falta a maioria no Legislativo - o jeito é lotear o governo entre os partidos para costurar esta maioria. Dai o ministro da Agricultura é um industrial, o da Educação é um engenheiro e o do Trabalho nunca leu nada sobre leis trabalhistas (ou sobre absolutamente nada). Pela governabilidade monta-se uma equipe de governo ingovernável.
Dai o partido que apóia o governo federal é oposição num estado e situação na edilidade da cidade mais importante. O deputado da oposição negocia verbas federais para os estados onde seu governo é situação e alinhado com a União. O prefeito não é do partido do governador do estado, mas é correligionário do presidente da República, o que permite que as verbas cheguem com fluidez no seu município enquanto o estado morre a míngua graças a falta de diálogo. São as coligações partidárias: fruto do único interesse de ter representação legislativa para o partido não sumir no limbo da falta de publicidade obrigatória de rádio e TV e sem financiamento do fundo público partidário.
Para encerrar: quem escolhe as pessoas que tem a responsabilidade de investigar e fiscalizar a lisura das ações dos poderes são eles mesmos. Ai é o cúmulo de ser jabuticaba e confiar a raposa a guarda do galinheiro.
Falam em reforma política. Só vai funcionar se a reforma começar no bom dia que se dá ao porteiro ou lixeiro. Fazemos de graça, mas precisamos de mais atenção com a política.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Fazemos de Graça (parte II)
O partido é parte indispensável no processo político. Visto que não existe neutralidade na política, todos tomam partido em algum tema e alinham suas opiniões num determinado grupo, visto que a política é de feitura coletiva e baseada na discussão.
Todavia esta composição partidária apresenta dificuldades. Listarei algumas e farei uso, neste primeiro momento, de exemplos internacionais, embora possam ser transportados facilmente para nosso cenário político.
Vejo um problema sério de denominação nos partidos políticos. Nos EUA nós temos o partido Democrata e o partido Republicano. Eles são antagônicos entre si, mas ambos defendem a democracia e a república. Somente conhecendo a história é possível reconhecer um como de um pouco mais de vanguarda e outro um pouco mais de linha reacionária. Embora antagônicos, seus nomes não permitem uma localização imediata do lado que ocupam.
Não vejo como correto ou salutar um partido defender apenas uma classe. Dá impressão de sindicato, onde "se a farinha é pouca, meu pirão primeiro". Na Polônia, um dos principais partidos leva o nome do principal sindicato do país. Esta relação entre governo e sindicalismo (embora sejam espaços privilegiados de exercício político) acaba por ser promíscua e pelega.
No Brasil então, com o sistema pluripartidário, temos uma salada de siglas a favor do social, do trabalhador, do meio ambiente, da democracia. Acho difícil algum partido ser contrário, independente de seu alinhamento, a estas ideias.
Ainda no caso do Brasil, a dificuldade é maior. Não há uma definição clara entre direita e esquerda. É importante recordar que todas as tendências politicas brasileiras e suas principais lideranças dividiam palanque pela redemocratização na penúltima década do século passado. Além de falta de alicerce diferenciado de discussão (por conta do mesmo nascedouro), a possibilidade de trocar de legenda a cada período eleitoral acaba por descompromissar o político de alguma ideologia. No Brasil, ninguém é genuinamente de direita ou esquerda.
Então temos a jabuticaba: o Brasil é um país presidencialista parlamentar. Escrevo sobre isto amanhã.
Todavia esta composição partidária apresenta dificuldades. Listarei algumas e farei uso, neste primeiro momento, de exemplos internacionais, embora possam ser transportados facilmente para nosso cenário político.
Vejo um problema sério de denominação nos partidos políticos. Nos EUA nós temos o partido Democrata e o partido Republicano. Eles são antagônicos entre si, mas ambos defendem a democracia e a república. Somente conhecendo a história é possível reconhecer um como de um pouco mais de vanguarda e outro um pouco mais de linha reacionária. Embora antagônicos, seus nomes não permitem uma localização imediata do lado que ocupam.
Não vejo como correto ou salutar um partido defender apenas uma classe. Dá impressão de sindicato, onde "se a farinha é pouca, meu pirão primeiro". Na Polônia, um dos principais partidos leva o nome do principal sindicato do país. Esta relação entre governo e sindicalismo (embora sejam espaços privilegiados de exercício político) acaba por ser promíscua e pelega.
No Brasil então, com o sistema pluripartidário, temos uma salada de siglas a favor do social, do trabalhador, do meio ambiente, da democracia. Acho difícil algum partido ser contrário, independente de seu alinhamento, a estas ideias.
Ainda no caso do Brasil, a dificuldade é maior. Não há uma definição clara entre direita e esquerda. É importante recordar que todas as tendências politicas brasileiras e suas principais lideranças dividiam palanque pela redemocratização na penúltima década do século passado. Além de falta de alicerce diferenciado de discussão (por conta do mesmo nascedouro), a possibilidade de trocar de legenda a cada período eleitoral acaba por descompromissar o político de alguma ideologia. No Brasil, ninguém é genuinamente de direita ou esquerda.
Então temos a jabuticaba: o Brasil é um país presidencialista parlamentar. Escrevo sobre isto amanhã.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Fazemos de Graça (parte I)
A Pólis. A coisa pública. Espaço de atuação de todo ser. Seja para apoiar, reinvindicar ou discordar, a política está presente na sociedade já faz alguns milênios. Política esta que garante a tessitura da manta social e mantém, quer você goste ou não, o sistema, seja do jeito que está ou de qualquer outro jeito que você imagine. A sociedade não se mantém sem política.
E que troço mais engraçado que é a política. Até quando você afirma que não gosta dela você faz política. Quando você escolhe o que fazer para ou almoço; ir para praia ou fazenda nas férias; discutir a relação com a esposa ou beber no bar... Nas situações mais rotineiras e cotidianas, em toda e qualquer situação social existente, você faz política. Apolítico são os seres mais politizados que conheço, pois escolheram não serem políticos, embora qualquer escolha seja política.
Certamente a política é a atividade mais plural que existe. Diferentemente daquilo que é o senso comum, a política é uma das poucas coisas na Terra que fazemos de graça. Exercer política independe de raça, gênero ou credo. Seja milionário do Ocidente ou mendigo no Oriente, se faz política o tempo todo. Já que política é o ato de escolher, fazemos política até quando dormimos.
Já que algo tão natural e plural, porque a política é um problema aqui e em várias partes do mundo? Pergunto e respondo: o problema é a representação. E pasmem: não são os representantes, mas a forma como se agrupam para conseguir o direito de ser representantes. O problema são os partidos.
E que troço mais engraçado que é a política. Até quando você afirma que não gosta dela você faz política. Quando você escolhe o que fazer para ou almoço; ir para praia ou fazenda nas férias; discutir a relação com a esposa ou beber no bar... Nas situações mais rotineiras e cotidianas, em toda e qualquer situação social existente, você faz política. Apolítico são os seres mais politizados que conheço, pois escolheram não serem políticos, embora qualquer escolha seja política.
Certamente a política é a atividade mais plural que existe. Diferentemente daquilo que é o senso comum, a política é uma das poucas coisas na Terra que fazemos de graça. Exercer política independe de raça, gênero ou credo. Seja milionário do Ocidente ou mendigo no Oriente, se faz política o tempo todo. Já que política é o ato de escolher, fazemos política até quando dormimos.
Já que algo tão natural e plural, porque a política é um problema aqui e em várias partes do mundo? Pergunto e respondo: o problema é a representação. E pasmem: não são os representantes, mas a forma como se agrupam para conseguir o direito de ser representantes. O problema são os partidos.
sábado, 25 de abril de 2015
Eu entendo. Mas não concordo.
Eu entendo... Eu, depois de observar muito o mundo e os fatos, passei a entender o que leva as pessoas, cada vez mais cedo nos dias de hoje, a entrarem no caminho só de ida dos vícios.
Eu entendo também que existem drogas ilícitas e que o consumo destas substâncias é desencorajado. Afinal o consumo destas substâncias, sem controle governamental, expõe o indivíduo a mercê do crime.
Passei a entender, depois de mais estudo, que o governo pode até promover campanhas para uso consciente das drogas lícitas, mas, devido a altíssima carga tributária, jamais proibirá a venda do cigarro e das bebidas alcoólicas.
Entendo o quão difícil é a realidade e que a fuga é o melhor mecanismo de defesa. Para fugir da realidade, o álcool é uma ferramenta muito eficiente. E a realidade, na maioria dos casos, é sofrida e dolorida demais, sendo complexo encarar tudo isso de cara limpa.
Entendo também quem evita o primeiro gole. A sensação que a presença do álcool traz, equilibrando físico e espiritual, te colocando do lado avesso para desespero de amigos reais e família, é libertadora. Sob ação da bebida o sujeito se liberta das amarras sociais e tem condições de ser si mesmo: melancólico profundo ou transloucadamente extrovertido.
Entendo ainda que, embora seja lícito, o álcool e o seu dependente colaboram para sobrecarregar os sistemas de saúde e prisional. O álcool compromete reflexos e destrói o corpo, além de ser bem classificado no que tange aos motivos para acidentes e delitos.
Entendo também que existem pessoas que consomem álcool de forma recreativa. Porém a maioria esmagadora perde o controle quando bebem. Isto coloca em risco o indivíduo e a sociedade.
Entendo também o equívoco de nomenclatura para os dependentes de álcool. O termo alcoólatra passa a ideia, graças a grafia, que o cidadão adora beber. O termo adequado é alcoolista, pois a grafia, desta forma, denota a dependências da pessoa diante da bebida.
Eu entendo a crueza do mundo e das relações humanas. Entendo que existem diferenças entre as pessoas e que cada um reage ao álcool de diferentes formas. Eu entendo, mas não concordo com a aceitação das pessoas diante do consumo de álcool.
Eu entendo também que existem drogas ilícitas e que o consumo destas substâncias é desencorajado. Afinal o consumo destas substâncias, sem controle governamental, expõe o indivíduo a mercê do crime.
Passei a entender, depois de mais estudo, que o governo pode até promover campanhas para uso consciente das drogas lícitas, mas, devido a altíssima carga tributária, jamais proibirá a venda do cigarro e das bebidas alcoólicas.
Entendo o quão difícil é a realidade e que a fuga é o melhor mecanismo de defesa. Para fugir da realidade, o álcool é uma ferramenta muito eficiente. E a realidade, na maioria dos casos, é sofrida e dolorida demais, sendo complexo encarar tudo isso de cara limpa.
Entendo também quem evita o primeiro gole. A sensação que a presença do álcool traz, equilibrando físico e espiritual, te colocando do lado avesso para desespero de amigos reais e família, é libertadora. Sob ação da bebida o sujeito se liberta das amarras sociais e tem condições de ser si mesmo: melancólico profundo ou transloucadamente extrovertido.
Entendo ainda que, embora seja lícito, o álcool e o seu dependente colaboram para sobrecarregar os sistemas de saúde e prisional. O álcool compromete reflexos e destrói o corpo, além de ser bem classificado no que tange aos motivos para acidentes e delitos.
Entendo também que existem pessoas que consomem álcool de forma recreativa. Porém a maioria esmagadora perde o controle quando bebem. Isto coloca em risco o indivíduo e a sociedade.
Entendo também o equívoco de nomenclatura para os dependentes de álcool. O termo alcoólatra passa a ideia, graças a grafia, que o cidadão adora beber. O termo adequado é alcoolista, pois a grafia, desta forma, denota a dependências da pessoa diante da bebida.
Eu entendo a crueza do mundo e das relações humanas. Entendo que existem diferenças entre as pessoas e que cada um reage ao álcool de diferentes formas. Eu entendo, mas não concordo com a aceitação das pessoas diante do consumo de álcool.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Tripalium, sonho e salário.
Paulinho da Viola afirmou, em sua célebre composição, que "dinheiro na mão é vendaval". Vejo as pessoas repetirem este verso como prova de sabedoria e bom convívio com o vil metal. Entretanto, na minha opinião, o maior ensinamento da canção está no segundo verso.
Por conta de nossa formação civilizatória ter traços católicos jesuítas, nossa relação com o dinheiro e, principalmente, a aquisição dele, é quase impura e indigna. Declara-se não merecedor do reino do céu aquele que não é humilde e se relaciona humildade a falta ou renúncia ao dinheiro. São inúmeras passagens bíblicas (sempre considerando a interpretação) que reforça isto.
Desta forma passamos a vida inteira acumulando riqueza e, quando conseguimos, nos tornamos sujos. Ainda bem que a caridade existe para limpar nossa barra, deixando a impressão que todo enriquecimento é ilícito e vem da ação de sobrepujar alguém. Nossos irmãos orientais e estadunidenses pensam diferente. Mas este texto é sobre dinheiro, não sobre religião.
E sobre aquilo que fazemos para ganhar dinheiro. Temos várias formas de castigo (a palavra trabalho vem de tripalium, nome em latim de um instrumento de tortura semelhante ao grilhão) possíveis para se temperar a vida (salário vem do sal, forma que os soldados romanos recebiam por seu trabalho) Sofrer para ter sabor? Então o trabalho digno, dentro deste prisma, só é recompensador se for fruto de dor e muito esforço.
Então é lindo você chegar em casa e afirmar que suou sangue e se quebrou todo para ganhar seu sustento. Então você gasta seu tempero todo como lenitivo para a tortura... E volta para a tortura para conseguir mais tempero... É um ciclo destruidor e vicioso. Destruidor porque este excesso de tortura é insano e vicioso porque quanto mais se tem, mais se quer.
"Mas é preciso viver. E viver não é brincadeira não". Então, para dar conta das necessidades da vida, você apela para hora extra, para o bico, para o segundo emprego. E sonha que o buraco negro de seu vício/necessidade por dinheiro será tapado com mais dinheiro... Engano.
O problema é que sonhamos com dinheiro e sabemos que sonhar com maus sal na comida vai matar a gente devagar. Já que não temos pressa para morrer aceitamos o jogo e, invés de fechar a janela, colocamos a culpa na chuva por molhar a cama.
Dinheiro - algo da pura necessidade humana - só é vendaval " na vida de um sonhador " - algo da pura necessidade celestial.
Por conta de nossa formação civilizatória ter traços católicos jesuítas, nossa relação com o dinheiro e, principalmente, a aquisição dele, é quase impura e indigna. Declara-se não merecedor do reino do céu aquele que não é humilde e se relaciona humildade a falta ou renúncia ao dinheiro. São inúmeras passagens bíblicas (sempre considerando a interpretação) que reforça isto.
Desta forma passamos a vida inteira acumulando riqueza e, quando conseguimos, nos tornamos sujos. Ainda bem que a caridade existe para limpar nossa barra, deixando a impressão que todo enriquecimento é ilícito e vem da ação de sobrepujar alguém. Nossos irmãos orientais e estadunidenses pensam diferente. Mas este texto é sobre dinheiro, não sobre religião.
E sobre aquilo que fazemos para ganhar dinheiro. Temos várias formas de castigo (a palavra trabalho vem de tripalium, nome em latim de um instrumento de tortura semelhante ao grilhão) possíveis para se temperar a vida (salário vem do sal, forma que os soldados romanos recebiam por seu trabalho) Sofrer para ter sabor? Então o trabalho digno, dentro deste prisma, só é recompensador se for fruto de dor e muito esforço.
Então é lindo você chegar em casa e afirmar que suou sangue e se quebrou todo para ganhar seu sustento. Então você gasta seu tempero todo como lenitivo para a tortura... E volta para a tortura para conseguir mais tempero... É um ciclo destruidor e vicioso. Destruidor porque este excesso de tortura é insano e vicioso porque quanto mais se tem, mais se quer.
"Mas é preciso viver. E viver não é brincadeira não". Então, para dar conta das necessidades da vida, você apela para hora extra, para o bico, para o segundo emprego. E sonha que o buraco negro de seu vício/necessidade por dinheiro será tapado com mais dinheiro... Engano.
O problema é que sonhamos com dinheiro e sabemos que sonhar com maus sal na comida vai matar a gente devagar. Já que não temos pressa para morrer aceitamos o jogo e, invés de fechar a janela, colocamos a culpa na chuva por molhar a cama.
Dinheiro - algo da pura necessidade humana - só é vendaval " na vida de um sonhador " - algo da pura necessidade celestial.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
Igual a um copo descartável.
Entrou em casa quase sem forças. Abriu a porta com dificuldade por conta dos tremores nas mãos. Entrou e não fechou a porta. Se jogou no sofá e não deu mais nenhum passo. Parecia que tinha duas bolas de ferro, daquelas medievais, amarradas nos pés. Mesmo que desejasse, não daria mais nenhum passo.
Prostrado no sofá ele arfava. Parecia que o oxigênio do mundo havia acabado. Arfava e aguentava a batedeira desenfreada do seu coração tentando se recompor. Transpirava litros e a boca era uma lixa devido a ausência absoluta de saliva. Tinha cor de copinho descartável. Parecia prestes a morrer.
O medo é assim: ele te fortalece ou mina tuas forças. Faz rir ou chorar (ou as duas coisas ao mesmo tempo), conscientiza ou desatina. Por medo você corre como suas pernas não fossem suas e se esconde onde seu corpo não cabe. Ele pode te conferir raciocínio de genio ou congelar suas atitudes. O medo é o mais imprevisível dos sentimentos.
Imprevisível e incompreendido. Afinal de contas, aquilo que amedronta um pode encorajar o outro. O causador de lágrimas compulsivas pode despertar acesso de riso no outro. O medo é personalizado e intransferível, mundial e esdrúxulo, sagrado e profano. Quem tem medo, tem medo e pronto. Não precisa maiores explicação: se tem medo e pronto.
Ah! O medo que fez o cidadão quase morrer se deu graças a uma barata que cruzou seu caminho.
Prostrado no sofá ele arfava. Parecia que o oxigênio do mundo havia acabado. Arfava e aguentava a batedeira desenfreada do seu coração tentando se recompor. Transpirava litros e a boca era uma lixa devido a ausência absoluta de saliva. Tinha cor de copinho descartável. Parecia prestes a morrer.
O medo é assim: ele te fortalece ou mina tuas forças. Faz rir ou chorar (ou as duas coisas ao mesmo tempo), conscientiza ou desatina. Por medo você corre como suas pernas não fossem suas e se esconde onde seu corpo não cabe. Ele pode te conferir raciocínio de genio ou congelar suas atitudes. O medo é o mais imprevisível dos sentimentos.
Imprevisível e incompreendido. Afinal de contas, aquilo que amedronta um pode encorajar o outro. O causador de lágrimas compulsivas pode despertar acesso de riso no outro. O medo é personalizado e intransferível, mundial e esdrúxulo, sagrado e profano. Quem tem medo, tem medo e pronto. Não precisa maiores explicação: se tem medo e pronto.
Ah! O medo que fez o cidadão quase morrer se deu graças a uma barata que cruzou seu caminho.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Filosofia
O barato da coisa é que, na grandeza de um de repente e na demora de um segundo, o que doía passou a confortar, o que era aconchego virou repulsa, o que era lenitivo se transforma em veneno. O que desce passa a subir e o que sobe desembesta a descer.
Como são bem vindos estes momentos em que perdemos o freio e o comando. Momentos em que as certezas nos dão o delicioso benefício da dúvida e vemos nossas convicções levadas pelo vento como poeira. Excelente perder o chão.
Perder o chão é a oportunidade que você espera para criar asas. Estar na beira do abismo e dar um passo adiante pode ser a melhor atitude. Para que deixar para amanhã o que você pode deixar para lá?
O que vale neste mundo, na loucura que é ser humano, é a certeza absoluta que do pó viemos e para o pó voltaremos. Definido o começo e o fim, vamos levar o meio da forma mais leve possível, sabendo que tudo que é bom enjoa. E o meio passa muito rápido, não vale a pena passar enjoado por ele.
Não se prenda a realidade. Ela é uma ilusão.
Como são bem vindos estes momentos em que perdemos o freio e o comando. Momentos em que as certezas nos dão o delicioso benefício da dúvida e vemos nossas convicções levadas pelo vento como poeira. Excelente perder o chão.
Perder o chão é a oportunidade que você espera para criar asas. Estar na beira do abismo e dar um passo adiante pode ser a melhor atitude. Para que deixar para amanhã o que você pode deixar para lá?
O que vale neste mundo, na loucura que é ser humano, é a certeza absoluta que do pó viemos e para o pó voltaremos. Definido o começo e o fim, vamos levar o meio da forma mais leve possível, sabendo que tudo que é bom enjoa. E o meio passa muito rápido, não vale a pena passar enjoado por ele.
Não se prenda a realidade. Ela é uma ilusão.
sábado, 18 de abril de 2015
Colorir (parte 2)
Então você, depois das inúmeras atividades cotidianas, resolve pegar seu livro de colorir e, com lápis de cor aquarelavel ou tinta guache, dedica um breve tempo do dia para você mesmo em algo que te dá prazer.
Até aí, nada de errado. Na verdade, vou convidá-lo a pensar sobre coisas que não possuem nada de ruim. Os fatos a seguir são consequências da vida moderna, da qual ninguém, com vida urbana ou ligada as atividades citadinas, está livre.
Acordamos cedo e temos tarefas domésticas e profissionais para desempenhar. Todas necessitam de afinco, dedicação, concentração e paciência para serem bem feitas. Temos ainda as tarefas urgentes e emergentes (sempre algo sai fora do script) que tumultuam nossa existência. É o carro que quebra, filha (o) que adoece, pai e mãe que exigem nossa atenção, reunião de última hora...
E tem a academia, o happy hour, a internet, o bate volta na praia... Sempre estamos ocupados. E tal ocupação transcende os momentos da atribulação rotineira. Até nos momentos de lazer e/ou descanso nós temos a obrigação de fazer algo. O ócio deixou de existir na nossa sociedade.
Já faz tempo. Conheci o padre Marcelo Rossi nos meus tempos de Magistério onde toquei em algumas missas com ele. Pessoa da melhor estirpe. Ele jogava futebol todas as quintas a noite. Parava tudo que fazia para jogar bola. Estava marcado na agenda, que ele seguia com retidão. Ele falava que tinha que encarar o lazer como compromisso, senão ele não iria conseguir usufruir do descanso, por estar cansado demais.
Temos que organizar tarefas e ter o que fazer para descansar. Colorir desenhos é, dentro deste prisma, mais uma forma de coibir o "fazer nada" que não tem lugar neste mundo. Não consigo conceber descansar criando mais uma atividades, embora faça isso o tempo todo. Não é a toa que canais de TV estão em falência em todo mundo.
Outra linha de pensamento. O cidadão trabalha feito animal, de sol a sol, num ambiente estressante e é cobrado por resultados constantemente. Sua casa não é um exemplo de harmonia. São poucos amigos. Falta motivação para sair e ver as cores do mundo. Daí ele chega em casa e usa as cores de sua paleta para colorir a felicidade que falta em sua vida.
O quadro é extremo, mas todos nós carecemos de cores na vida pelos mais variados motivos. É raro encontrar alguém plenamente satisfeito com a vida que leva. Colorir desenhos e a chance de substituir o branco ou o cinza interior por cores que despertem sorrisos em nós mesmos.
E vamos além da disputa para ver quem tem o livro mais grosso ou a maior caixa de lápis. Vamos nos permitir o ócio produtivo e a vida menos ocupada e mais colorida.
Até aí, nada de errado. Na verdade, vou convidá-lo a pensar sobre coisas que não possuem nada de ruim. Os fatos a seguir são consequências da vida moderna, da qual ninguém, com vida urbana ou ligada as atividades citadinas, está livre.
Acordamos cedo e temos tarefas domésticas e profissionais para desempenhar. Todas necessitam de afinco, dedicação, concentração e paciência para serem bem feitas. Temos ainda as tarefas urgentes e emergentes (sempre algo sai fora do script) que tumultuam nossa existência. É o carro que quebra, filha (o) que adoece, pai e mãe que exigem nossa atenção, reunião de última hora...
E tem a academia, o happy hour, a internet, o bate volta na praia... Sempre estamos ocupados. E tal ocupação transcende os momentos da atribulação rotineira. Até nos momentos de lazer e/ou descanso nós temos a obrigação de fazer algo. O ócio deixou de existir na nossa sociedade.
Já faz tempo. Conheci o padre Marcelo Rossi nos meus tempos de Magistério onde toquei em algumas missas com ele. Pessoa da melhor estirpe. Ele jogava futebol todas as quintas a noite. Parava tudo que fazia para jogar bola. Estava marcado na agenda, que ele seguia com retidão. Ele falava que tinha que encarar o lazer como compromisso, senão ele não iria conseguir usufruir do descanso, por estar cansado demais.
Temos que organizar tarefas e ter o que fazer para descansar. Colorir desenhos é, dentro deste prisma, mais uma forma de coibir o "fazer nada" que não tem lugar neste mundo. Não consigo conceber descansar criando mais uma atividades, embora faça isso o tempo todo. Não é a toa que canais de TV estão em falência em todo mundo.
Outra linha de pensamento. O cidadão trabalha feito animal, de sol a sol, num ambiente estressante e é cobrado por resultados constantemente. Sua casa não é um exemplo de harmonia. São poucos amigos. Falta motivação para sair e ver as cores do mundo. Daí ele chega em casa e usa as cores de sua paleta para colorir a felicidade que falta em sua vida.
O quadro é extremo, mas todos nós carecemos de cores na vida pelos mais variados motivos. É raro encontrar alguém plenamente satisfeito com a vida que leva. Colorir desenhos e a chance de substituir o branco ou o cinza interior por cores que despertem sorrisos em nós mesmos.
E vamos além da disputa para ver quem tem o livro mais grosso ou a maior caixa de lápis. Vamos nos permitir o ócio produtivo e a vida menos ocupada e mais colorida.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Colorir (parte 1)
Quando criança não gostava de pintar. Não gostava porque não tinha paciência com os detalhes e com o fato de pintar sempre para o mesmo lado. Não gostava, mas era minoria. Me lembro da sala em silêncio, com todos caprichando e mostrando seus resultados felizes para a professora.
Cresci e escolhi ser professor. Fiz meu curso de Magistério no auge da onda construtivista, onde modelos prontos eram desaconselhados pois tolhiam a criatividade das crianças, embora a professora de Ed. Artística Educacional (acho que era este o nome da matéria) tenha solicitado uma pasta com desenhos mimeografados das datas comemorativas. Não fiz.
Ainda como estagiário (ou operador de mimeógrafo) fui apresentado a livros com diversos modelos de desenhos para os mais variados fins. As professoras passavam para o estêncil e se fazia a reprodução no mimeógrafo a álcool que embriagava quem mexia nele.
Questionei as professoras sobre estes modelos. Ouvi inúmeras razões para uso do desenho para colorir: melhoria da atenção e da concentração, desenvolvimento da "munheca" e da coordenação motora fina (ou restrita), compreensão da estética e combinação de cores, pintar e contornar obedecendo limites...
No meu exercício profissional, por conta da minha inabilidade, usei poucas vezes este recurso. Sempre preferi trabalhar Artes na sala de aula explorando Música e Teatro, mas os alunos, na maioria, adoravam colorir, com maior ou menor habilidade.
Aprendi a não demonizar nenhuma prática em sala de aula. Tudo dá certo e gera aprendizado. Desde que o professor saiba onde quer que seus alunos cheguem e realize as devidas intervenções para tanto.
Mas quando vejo adultos colorindo desenhos prontos (sem chamá-los de releituras, algo absolutamente antipático e plagiante) com especialistas dizendo das vantagens desta prática eu tiro ponto dos construtivistas (ou espontaneístas) e lembro da educação dita tradicional, que tinha seus problemas, mas não podia ter sido suprimida como foi desde o final do século passado.
É... O mundo está estranho. Talvez seja hora de dar um imenso passo para trás e recuperar algumas coisas.
Cresci e escolhi ser professor. Fiz meu curso de Magistério no auge da onda construtivista, onde modelos prontos eram desaconselhados pois tolhiam a criatividade das crianças, embora a professora de Ed. Artística Educacional (acho que era este o nome da matéria) tenha solicitado uma pasta com desenhos mimeografados das datas comemorativas. Não fiz.
Ainda como estagiário (ou operador de mimeógrafo) fui apresentado a livros com diversos modelos de desenhos para os mais variados fins. As professoras passavam para o estêncil e se fazia a reprodução no mimeógrafo a álcool que embriagava quem mexia nele.
Questionei as professoras sobre estes modelos. Ouvi inúmeras razões para uso do desenho para colorir: melhoria da atenção e da concentração, desenvolvimento da "munheca" e da coordenação motora fina (ou restrita), compreensão da estética e combinação de cores, pintar e contornar obedecendo limites...
No meu exercício profissional, por conta da minha inabilidade, usei poucas vezes este recurso. Sempre preferi trabalhar Artes na sala de aula explorando Música e Teatro, mas os alunos, na maioria, adoravam colorir, com maior ou menor habilidade.
Aprendi a não demonizar nenhuma prática em sala de aula. Tudo dá certo e gera aprendizado. Desde que o professor saiba onde quer que seus alunos cheguem e realize as devidas intervenções para tanto.
Mas quando vejo adultos colorindo desenhos prontos (sem chamá-los de releituras, algo absolutamente antipático e plagiante) com especialistas dizendo das vantagens desta prática eu tiro ponto dos construtivistas (ou espontaneístas) e lembro da educação dita tradicional, que tinha seus problemas, mas não podia ter sido suprimida como foi desde o final do século passado.
É... O mundo está estranho. Talvez seja hora de dar um imenso passo para trás e recuperar algumas coisas.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Fama ou sucesso?
Bendita fama. Tem gente que até vende a alma para o capeta "por causo" dela. Mediante esta missão das Artes, onde a fama é tão procurada, resolvi escrever umas linhas sobre isto.
Tem gente que realmente vende a alma para o rabudo para ter fama. Não está nos meus planos fazer isto, mas não recrimino quem o faça. Na minha opinião (se é que minha opinião vale alguma coisa), isto é o menos grave na busca pela fama. As pessoas fazem coisas piores que isso. Listarei algumas.
Na busca pela fama se perde os escrúpulos e a decência. Se mente, se engana, se trapaceia. Renega-se família e amigos, esquecendo das raízes e sendo ingrato com quem cruzou seu caminho. Fama injusta.
Pela fama se aceita ser algo que você não é, falar o que você não acredita, mostrar aquilo que não e tua imagem. Desta forma a fama é efêmera, pois falta verdade e identidade naquilo que se mostra e nada se sustenta sem raiz ou alicerce.
Nada fica no auge para sempre e aceitar o fim da fama é quase impossível para quem provou dele. Esta coisa é um ópio, drogando e criando dependência naquele que nunca se imaginou com sucesso em outra atividade.
Fama é igual paixão. Dura um tempo, é intensa e vai embora, geralmente destruindo o pouco que edificou. Viver com o amor é que é a sabedoria de se transformar fama em sucesso. E viver com pouco para fazer muito.
Sempre acreditei que o sucesso está "no pouco", na capacidade de ser mais e ter menos. Sempre disse que sucesso é bem diferente da fama. Sucesso é cuidar dos seus com competência, dormir a noite inteira sem remorso e pagar suas contas, independente de sua atividade profissional. Ainda bem que tenho sucesso. E você?
Tem gente que realmente vende a alma para o rabudo para ter fama. Não está nos meus planos fazer isto, mas não recrimino quem o faça. Na minha opinião (se é que minha opinião vale alguma coisa), isto é o menos grave na busca pela fama. As pessoas fazem coisas piores que isso. Listarei algumas.
Na busca pela fama se perde os escrúpulos e a decência. Se mente, se engana, se trapaceia. Renega-se família e amigos, esquecendo das raízes e sendo ingrato com quem cruzou seu caminho. Fama injusta.
Pela fama se aceita ser algo que você não é, falar o que você não acredita, mostrar aquilo que não e tua imagem. Desta forma a fama é efêmera, pois falta verdade e identidade naquilo que se mostra e nada se sustenta sem raiz ou alicerce.
Nada fica no auge para sempre e aceitar o fim da fama é quase impossível para quem provou dele. Esta coisa é um ópio, drogando e criando dependência naquele que nunca se imaginou com sucesso em outra atividade.
Fama é igual paixão. Dura um tempo, é intensa e vai embora, geralmente destruindo o pouco que edificou. Viver com o amor é que é a sabedoria de se transformar fama em sucesso. E viver com pouco para fazer muito.
Sempre acreditei que o sucesso está "no pouco", na capacidade de ser mais e ter menos. Sempre disse que sucesso é bem diferente da fama. Sucesso é cuidar dos seus com competência, dormir a noite inteira sem remorso e pagar suas contas, independente de sua atividade profissional. Ainda bem que tenho sucesso. E você?
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Manifesto contra a novofobia.
Todo mundo já foi iniciante em algo. Não há problema nenhum nisto. Encontramos, aos montes e diariamente, motoristas recém iniciados, médicos, professores... Enfim: tem sempre algum novato em alguma arte começando trabalho e almejando êxito na sua iniciativa.
O mundo é assim. Sempre foi assim e é bom que fique deste jeito, senão o ser humano sucumbirá como espécie.
Entretanto, na sociedade insana e intolerante que vivemos hoje em dia, percebo um comportamento que é contrário a esta ordem natural das coisas. Vou chamá-lo, visto que está na moda, de "novofobia".
A novofobia é a impaciência com o novato e sua inexperiência. É exigido que o ser domine todos os meandros daquilo que executa, todas as técnicas e recursos de sua seara, no primeiro momento em que se propõe a realizar a tarefa. É a consolidação das ideias que devemos "nascer sabendo" e de que "quem é bom já nasce feito".
Obviamente que temos os gênios, em todas as áreas. Mas representam parcela ínfima da humanidade. No normal, as pessoas precisam de alguns meses, anos, décadas para atingir a excelência naquilo que fazem. Entretanto, sejam gênios bestiais ou bestas geniais, todos já foram calouros em algo na vida.
Mas a tolerância do novofóbico não permite isso. Ele reclama a olhos vistos do motorista que deixa o carro morrer no trânsito, do professor que tem dificuldade em transmitir um saber, do músico errar uma nota. É feroz em berrar o erro e desqualificar quem executa a tarefa com coragem de se expor e de se mostrar em formação. Geralmente o novofóbico diz que até sabe fazer, mas não aceita ensinar pois passou por tudo sozinho e que a tarefa é simples e dispensa ajuda. É imperícia de um iniciante que não serve para a coisa. É um amargo.
Toda tarefa necessita de instrução, de auxílio nas primeiras execuções e, principalmente, de apoio e compreensão de todos que estão a sua volta. Se não fosse assim os casamentos acabariam no primeiro arroz queimado ou na troca da resistência do chuveiro. Só alcança a excelência quem tem ao lado alguém com paciência.
Deixo então meu repúdio aos novofóbicos que, na primeira chance, chamam o trabalho do inexperiente de ruim ou irrelevante. Abaixo a novofobia e viva o respeito e a tolerância, de todos com todos.
O mundo é assim. Sempre foi assim e é bom que fique deste jeito, senão o ser humano sucumbirá como espécie.
Entretanto, na sociedade insana e intolerante que vivemos hoje em dia, percebo um comportamento que é contrário a esta ordem natural das coisas. Vou chamá-lo, visto que está na moda, de "novofobia".
A novofobia é a impaciência com o novato e sua inexperiência. É exigido que o ser domine todos os meandros daquilo que executa, todas as técnicas e recursos de sua seara, no primeiro momento em que se propõe a realizar a tarefa. É a consolidação das ideias que devemos "nascer sabendo" e de que "quem é bom já nasce feito".
Obviamente que temos os gênios, em todas as áreas. Mas representam parcela ínfima da humanidade. No normal, as pessoas precisam de alguns meses, anos, décadas para atingir a excelência naquilo que fazem. Entretanto, sejam gênios bestiais ou bestas geniais, todos já foram calouros em algo na vida.
Mas a tolerância do novofóbico não permite isso. Ele reclama a olhos vistos do motorista que deixa o carro morrer no trânsito, do professor que tem dificuldade em transmitir um saber, do músico errar uma nota. É feroz em berrar o erro e desqualificar quem executa a tarefa com coragem de se expor e de se mostrar em formação. Geralmente o novofóbico diz que até sabe fazer, mas não aceita ensinar pois passou por tudo sozinho e que a tarefa é simples e dispensa ajuda. É imperícia de um iniciante que não serve para a coisa. É um amargo.
Toda tarefa necessita de instrução, de auxílio nas primeiras execuções e, principalmente, de apoio e compreensão de todos que estão a sua volta. Se não fosse assim os casamentos acabariam no primeiro arroz queimado ou na troca da resistência do chuveiro. Só alcança a excelência quem tem ao lado alguém com paciência.
Deixo então meu repúdio aos novofóbicos que, na primeira chance, chamam o trabalho do inexperiente de ruim ou irrelevante. Abaixo a novofobia e viva o respeito e a tolerância, de todos com todos.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Alquimizar.
Já escolhi a frase principal da minha lápide. Aquela que define tua passagem por este plano/dimensão. Sei que ainda faltam alguns muitos anos para meu gurufim, mas, visto que não tenho a intenção de modificar minha profissão de fé, creio que posso tomar tal decisão sem equívocos.
"Se foi aquele que fez de seu maior defeito, a sua melhor virtude". Esta será (vem sendo) minha marca na passagem por este plano: fazer da conduta abominável algo extremamente positivo.
Nunca me convenci a desistir de algo diante de negativas frouxas. Na verdade, nem mesmos nãos veementes costumam modificar minha opinião. Insistir, apesar dos obstáculos, é uma marca pessoal e o que permitiu que eu chegasse onde estou hoje, não da forma sonhada, mas muito melhor que da forma esperada.
Não deixarei para meus herdeiros posses ou lucros. Também não deixarei dívidas ou problemas. Mas transmito, desde muito cedo, que o segredo do sucesso está na perseverança e na tenacidade.
Por sinal, perseverança e tenacidade, são sintomas colaterais do defeito que marca a minha maior virtude. Colaterais positivos, pois ninguém aponta tais condutas como negativas. Por sinal chegam a ser invejadas e são predicados para se galgar a vitória. Mas perseverança e tenacidade nascem de um defeito.
Por sinal, o defeito é um troço muito engraçado. Ele é diferente do lapso ou do mal hábito. Por mais que você tente, que você lute, seu defeito aparece. Ele está impregnado no seu jeito de ser e agir. Tem ligação direta com seus princípios. Negar um defeito é negar a si mesmo.
Mas o que eu fiz (ou faço) não é mérito nenhum. Alquimizar defeito em virtude é uma fraqueza: fraqueza em admitir que não há como lutar com si mesmo, pois esta luta só produz derrotados. Nasci para trabalhar, mas não nasci (nem eu, nem ninguém) para perder.
Justamente para vencer na vida - o que nada tem a ver com condição sócio econômica (tem muito rico que é tão pobre por ter apenas dinheiro para oferecer) - que decidi escancarar meu defeito e mostrar que ele pode ser muito bom, desde que esteja apontado para o lado certo, tal e qual o assassino que se transforma, após muito estudo, em cirurgião. Abrindo pessoas na faca e salvando suas vidas.
"Se foi aquele que fez de seu maior defeito, a sua melhor virtude". A teimosia.
"Se foi aquele que fez de seu maior defeito, a sua melhor virtude". Esta será (vem sendo) minha marca na passagem por este plano: fazer da conduta abominável algo extremamente positivo.
Nunca me convenci a desistir de algo diante de negativas frouxas. Na verdade, nem mesmos nãos veementes costumam modificar minha opinião. Insistir, apesar dos obstáculos, é uma marca pessoal e o que permitiu que eu chegasse onde estou hoje, não da forma sonhada, mas muito melhor que da forma esperada.
Não deixarei para meus herdeiros posses ou lucros. Também não deixarei dívidas ou problemas. Mas transmito, desde muito cedo, que o segredo do sucesso está na perseverança e na tenacidade.
Por sinal, perseverança e tenacidade, são sintomas colaterais do defeito que marca a minha maior virtude. Colaterais positivos, pois ninguém aponta tais condutas como negativas. Por sinal chegam a ser invejadas e são predicados para se galgar a vitória. Mas perseverança e tenacidade nascem de um defeito.
Por sinal, o defeito é um troço muito engraçado. Ele é diferente do lapso ou do mal hábito. Por mais que você tente, que você lute, seu defeito aparece. Ele está impregnado no seu jeito de ser e agir. Tem ligação direta com seus princípios. Negar um defeito é negar a si mesmo.
Mas o que eu fiz (ou faço) não é mérito nenhum. Alquimizar defeito em virtude é uma fraqueza: fraqueza em admitir que não há como lutar com si mesmo, pois esta luta só produz derrotados. Nasci para trabalhar, mas não nasci (nem eu, nem ninguém) para perder.
Justamente para vencer na vida - o que nada tem a ver com condição sócio econômica (tem muito rico que é tão pobre por ter apenas dinheiro para oferecer) - que decidi escancarar meu defeito e mostrar que ele pode ser muito bom, desde que esteja apontado para o lado certo, tal e qual o assassino que se transforma, após muito estudo, em cirurgião. Abrindo pessoas na faca e salvando suas vidas.
"Se foi aquele que fez de seu maior defeito, a sua melhor virtude". A teimosia.
sábado, 11 de abril de 2015
Tijolos, paredes e a felicidade
Ah! A felicidade. Como buscamos este troço com afinco. Perseguimos com tanta tenacidade e dedicação que a impressão é que a vida só começa quando chegamos ns felicidade, que a história só começa quando chegamos no "felizes para sempre".
Desta forma vamos assentando tijolo por tijolo na parede, edificando a felicidade. Tem tijolos que chegam fáceis nas nossas mãos e no momento certo. Tem outros que custam mais caros e exigem muito esforço, mas ainda conquistamos ele e chegam na hora certa para não atrasar a obra.
Porém a construção não acontece sem intempéries. Daí escolhemos comprar o acabamento para a parede, numa promoção, e deixamos ele num cantinho, para instalar no momento oportuno. Então carregamos o fardo do retoque final com a parede no alicerce. Ou optamos por tocar a obra sem as vigas e sapatas mais difíceis. Então a parede sobe frágil e pode cair com qualquer vento ou dificuldade. Ainda assim seguimos e, mesmo com ela meio torta e sem sustentação, ficamos felizes com nossa construção.
A parede fica bonita e, já que tudo tem seu tempo, você não usufrui dela. Seja porque seu tempo acabou, seja porque a necessidade obrigou a fazer outra parede, seja porque a parede caiu... Daí você não foi feliz?
A felicidade não está no final da jornada. A felicidade está no trajeto para a felicidade. Ainda que eu não veja minha parede pronta, estou feliz em carregar cada tijolo.
Desta forma vamos assentando tijolo por tijolo na parede, edificando a felicidade. Tem tijolos que chegam fáceis nas nossas mãos e no momento certo. Tem outros que custam mais caros e exigem muito esforço, mas ainda conquistamos ele e chegam na hora certa para não atrasar a obra.
Porém a construção não acontece sem intempéries. Daí escolhemos comprar o acabamento para a parede, numa promoção, e deixamos ele num cantinho, para instalar no momento oportuno. Então carregamos o fardo do retoque final com a parede no alicerce. Ou optamos por tocar a obra sem as vigas e sapatas mais difíceis. Então a parede sobe frágil e pode cair com qualquer vento ou dificuldade. Ainda assim seguimos e, mesmo com ela meio torta e sem sustentação, ficamos felizes com nossa construção.
A parede fica bonita e, já que tudo tem seu tempo, você não usufrui dela. Seja porque seu tempo acabou, seja porque a necessidade obrigou a fazer outra parede, seja porque a parede caiu... Daí você não foi feliz?
A felicidade não está no final da jornada. A felicidade está no trajeto para a felicidade. Ainda que eu não veja minha parede pronta, estou feliz em carregar cada tijolo.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Bandido e Policial.
Tropeçou. Caiu. E se virou para levantar. Quando ergueu a cabeça deu de cara com a pistola do Policial. Podia sentir o cano morno da arma encostada em teu cerne. Ainda assim esboçou reação e tentou desarmá-lo. Em vão. Percebendo a reação, Policial, num único e certeiro disparo, atingiu a cabeça do bandido que caiu morto.
No velório do bandido tinha pouca gente. Uma mirrada coroa de flores do lado direito do caixão. A viúva, a sogra e um cunhado sentados numa longarina plástica a esquerda. Poucos amigos a direita. No colo da viuva um bebê de três meses de idade. Do lado de fora a imprensa contava o caso depois de falar com a mãe do falecido.
Bandido não nascera bandido. Foi uma criança normal até o início da adolescência. Gostava de futebol. Pensou ser jogador. A familia deu apoio. Mas, depois de algumas peneiras, viu que não conseguiria. Desistiu.
Deu continuidade aos estudos e, antes de concluir o Ensino Médio, apesar da possibilidade de prestar serviço militar, conseguiu emprego de atendente numa loja de material de construção.
E poderia ter sido assim. Bandido poderia ter trabalhado com afinco, estudado a noite. Teria se formado e conseguiria emprego melhor. Teria casado e comprado tua casa em 25 ou 30 anos... Teria uma vida normal, de segunda a sexta com sono, faxina em casa no sábado e churrasco e casa com família e amigos apos o futebol dominical. Igual seu pai. Teria... Mas a pressa não permitiu esta trajetória a Bandido.
Queria ter casa e carro rápido. Queria rápido juntar os amigos para o churrasco (mesmo sem possuir amigos ainda). E queria o churrasco de quarta feira a tarde. Queria tênis e roupa de grife para impressionar a menina bonita de pouco cérebro e pouca vontade. Queria tanto que conseguiu.
Primeiro facilitou o assalto a loja de material de construção que trabalhava. Depois foi olheiro no supermercado para compreender a rotina do mesmo e planejar o roubo... Coadjuvante. Planejador. Com boas comissões sobre os delitos.
Foram 15 "fitas" e a casa veio. A menina bonita de pouco cérebro e pouca vontade abriu as pernas com pouca força e jurou amor eterno, veio o carro... Vida boa. Para seu pais ele deu sumiço. Era outro menino. Era Bandido.
Mas só as comissões não bastavam. Queria ter fazenda. Morar fora do país, pois era tudo muito violento e seu filho recém nascido não podia crescer num país sem lei. Queria o melhor para sua família, pois era bom pai. Resolveu participar pessoalmente do assalto ao caixa eletrônico, dentro do supermercado. Assalto que Bandido mesmo planejou e que não tinha como dar errado.
Mas deu: Policial, cumprindo seu dever já há trinta anos, atirou no Bandido. Atirou e chorou, pois o coração do policial sabia que Bandido bom era Bandido morto. Sabia. Mas não queria matar aquilo que ele tinha feito de melhor.
E Policial foi até o velório fardado. Foi um daqueles que carregou o caixão de Bandido, seu único filho, até a sepultura.
Precisamos do mal para saber o que é o bem. Todo bom tem sua face má. Todo mau tem sua parcela de bondade. Mas o encontro do bem com o mal, na mesma mesa, na mesma cerimônia, pode atingir espectros inimagináveis. Ainda mais quando a melhor produção do bem/mal foi o mal/bem.
No velório do bandido tinha pouca gente. Uma mirrada coroa de flores do lado direito do caixão. A viúva, a sogra e um cunhado sentados numa longarina plástica a esquerda. Poucos amigos a direita. No colo da viuva um bebê de três meses de idade. Do lado de fora a imprensa contava o caso depois de falar com a mãe do falecido.
Bandido não nascera bandido. Foi uma criança normal até o início da adolescência. Gostava de futebol. Pensou ser jogador. A familia deu apoio. Mas, depois de algumas peneiras, viu que não conseguiria. Desistiu.
Deu continuidade aos estudos e, antes de concluir o Ensino Médio, apesar da possibilidade de prestar serviço militar, conseguiu emprego de atendente numa loja de material de construção.
E poderia ter sido assim. Bandido poderia ter trabalhado com afinco, estudado a noite. Teria se formado e conseguiria emprego melhor. Teria casado e comprado tua casa em 25 ou 30 anos... Teria uma vida normal, de segunda a sexta com sono, faxina em casa no sábado e churrasco e casa com família e amigos apos o futebol dominical. Igual seu pai. Teria... Mas a pressa não permitiu esta trajetória a Bandido.
Queria ter casa e carro rápido. Queria rápido juntar os amigos para o churrasco (mesmo sem possuir amigos ainda). E queria o churrasco de quarta feira a tarde. Queria tênis e roupa de grife para impressionar a menina bonita de pouco cérebro e pouca vontade. Queria tanto que conseguiu.
Primeiro facilitou o assalto a loja de material de construção que trabalhava. Depois foi olheiro no supermercado para compreender a rotina do mesmo e planejar o roubo... Coadjuvante. Planejador. Com boas comissões sobre os delitos.
Foram 15 "fitas" e a casa veio. A menina bonita de pouco cérebro e pouca vontade abriu as pernas com pouca força e jurou amor eterno, veio o carro... Vida boa. Para seu pais ele deu sumiço. Era outro menino. Era Bandido.
Mas só as comissões não bastavam. Queria ter fazenda. Morar fora do país, pois era tudo muito violento e seu filho recém nascido não podia crescer num país sem lei. Queria o melhor para sua família, pois era bom pai. Resolveu participar pessoalmente do assalto ao caixa eletrônico, dentro do supermercado. Assalto que Bandido mesmo planejou e que não tinha como dar errado.
Mas deu: Policial, cumprindo seu dever já há trinta anos, atirou no Bandido. Atirou e chorou, pois o coração do policial sabia que Bandido bom era Bandido morto. Sabia. Mas não queria matar aquilo que ele tinha feito de melhor.
E Policial foi até o velório fardado. Foi um daqueles que carregou o caixão de Bandido, seu único filho, até a sepultura.
Precisamos do mal para saber o que é o bem. Todo bom tem sua face má. Todo mau tem sua parcela de bondade. Mas o encontro do bem com o mal, na mesma mesa, na mesma cerimônia, pode atingir espectros inimagináveis. Ainda mais quando a melhor produção do bem/mal foi o mal/bem.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
A vontade não passou.
Gostaria de ver alguém com coragem para mudar o nome deste negócio. O nome dele não está certo. Ao invés de Educação, seria melhor chamá-la de Erudição.
Digo isso porque o termo Educação é muito amplo e, na tentativa de abarcar uma série de aspectos da formação humana, acaba por não dar conta de seu princípio: a Erudição.
O sujeito erudito é conhecedor daquilo que se propõe a saber e sabe fazer uso de um determinado cabedal de saberes para atingir seus objetivos. E não, necessariamente e a via de regra, de forma educada.
E o processo de erudição exige conhecimento teórico, observação da realidade e muita prática. Depois de alguns muitos anos apoiado nesta tríade a pessoa pode se considerar erudita. Mas talvez jamais será educada.
Dentro de uma escola a prática é a base da formação erudita. Prática em quê? Prática em viver. As escolas deveriam "brincar de viver" a todo tempo, seja no exercício das atividades cotidianas (cozinhar, costurar, comprar, organizar...) ou de outras não tão rotineiras (produzir um livro, entrevistar pessoas, viajar...) a escola deveria estar impregnada de tarefas práticas que justificariam a importância do registrar, contar, exemplificar, observar...
Confesso que me apavora ver o foco que se dá na alfabetização dos alunos. Caso o mesmo tenha algum comprometimento, tal processo ocorre, sem sofrimento ou trauma, em sete ou oito meses. Alfabetização é ferramenta. O que se faz com ela depois é o que importa. Isso ocorre junto com a Erudição e sem ser fim em si mesmo.
E esta tarefa de "brincar de viver" é a que dá acesso ao currículo oculto (o primordial a ser aprendido até os 10 ou 11 anos de idade, porque depois ele não é assimilado): respeito, tolerância, equidade, solidariedade, trabalho coletivo, cidadania... Coisas tão em falta nos dias de hoje e que lápis, papel e tecnologia avançada não ensinam.
Desta feita, tente parar de educar. A humanidade tenta isso há milênios e fracassa. Vamos nos preocupar, na oficina da vida, em termos pessoas eruditas, com conhecimentos plenos em vários ramos da cultura e conhecimento. Inclusive sabedoras de seu papel social, para quem sabe, assim, tentarem agir educadamente.
E por favor: sejam eruditos suficiente para não me levarem a sério.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Para cabeceadores e descabeçados.
Me veio na cabeça uma ideia. E ainda bem que veio na cabeça. Por mais que a execução passe pelas mãos, pelos pés ou pela boca, a ideia vem na cabeça.
E a milênios é assim: grandes cabeças e cabeças grandes vêm tendo ideias das mais variadas, para deleite da humanidade que, graças as ideias destas cabeças de valor (positivas ou negativas), recebemos cafuné ou enfiamos a cabeça na parede sem dó.
Por sinal, quantas pancadas são necessárias para amaciar uma cabeça dura? E quanto de gesso a vida precisa para endurecer uma cabeça mole? É enguiço quando a cabeça dói. Um perigo tê-la vazia. Um saco ter a cabeça cheia demais. Seja a de cima ou a debaixo.
É preciso ter cabeça no lugar, pois de cabeça quente é impossível ser cabeça das ações mais importantes. Seja a cabeça da formiga, do elefante ou do bacalhau (que vi pela televisão faz pouco tempo) todos prezam por ela, pois perder a cabeça é um péssimo negócio. Tão perigoso quanto aquele rapaz que promete "colocar só a cabecinha". A cabeça é a morada da alma e da falta de juízo. Nascedouro daquilo que é bom e ruim.
Como diria o poeta injustiçado: "é a cabeça irmão... é a cabeça irmão... é a cabeça.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Meu sonho de Ícaro.
Por um instante desejei ter asas. Deve ser interessante observar a correria das pessoas de outro ângulo. Pairar no ar as seis da matina e observar o ponto de ônibus encher, a rua engarrafar, a fumaça sair do forno da padaria.
Deve ser engraçado, lá de cima, a agitação da molecada na porta da escola e o abrir das janelas de quem pode acordar mais tarde. Lá de cima, certamente, as roupas nos varais formam mosaico colorido e, com o vento, tremulam feito bandeiras, num espetáculo lindo de se ver.
Os parques e matas, com este mesmo vento, devem brindar as retinas com folhas secas dando rasantes e lagoas marolando num azul ou verde infinito. Até desertos e areais, com dunas e oásis, devem dançar lá de cima. Tudo lindo de se ver.
Claro que a poluição, a morte, a dor e a maldade não devem ser bonitas lá de cima. Afinal elas são feias de qualquer ponto de vista. Tão feias que conseguem ser sinônimos.
Por um momento desejei asas. Só para saber de que jeito Deus vê o mundo.
sábado, 4 de abril de 2015
É a Páscoa!
O dia amanheceu preguiçoso. O Sol pareceu enroscar no horizonte e fazer força para não sair. Entretanto, já que o Criador não deu ao Astro Rei a opção de não ir trabalhar, ainda que por um único dia, ele tomou seu lugar no céu com ares de poucos amigos.
Num amanhecer onde até os passarinhos pareciam economizar gorjeios e as gotas do sereno da madrugada nem se moviam com o calor tímido da manhã, a criança despertou.
Olhinhos grudados de remela e músculos retesados depois do sono profundo. Sentiu a luz do dia nas pálpebras e, com um grunhido incompreensível, virou para o outro lado, meteu a cabeça sob o travesseiro e Tentou dormir de novo.
Dai a criança lembrou que era Domingo de Páscoa. Sentou na cama num sobressalto e, num berro emocionado e ansioso pelo ovo, acordou o mundo inteiro, como uma ressurreição que ocorreu há quase dois mil anos.
Num amanhecer onde até os passarinhos pareciam economizar gorjeios e as gotas do sereno da madrugada nem se moviam com o calor tímido da manhã, a criança despertou.
Olhinhos grudados de remela e músculos retesados depois do sono profundo. Sentiu a luz do dia nas pálpebras e, com um grunhido incompreensível, virou para o outro lado, meteu a cabeça sob o travesseiro e Tentou dormir de novo.
Dai a criança lembrou que era Domingo de Páscoa. Sentou na cama num sobressalto e, num berro emocionado e ansioso pelo ovo, acordou o mundo inteiro, como uma ressurreição que ocorreu há quase dois mil anos.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Nada
Eu nunca sei direito o que vou escrever. Durante o dia as ideias aparecem em minha mente, mas, geralmente, não escrevo nenhuma delas quando sento e junto as palavras.
Entretanto, hoje (dia dedicado a comer peixe, ficar com a família um pouquinho e refletir sobre a vida) nenhuma ideia me ocorreu.
Assim resolvi escrever sobre o nada. A situação que passo hoje já me causou pânico (principalmente no tempo - distante - em que me dedicava a escrever poesias), pois a falta de ideias pode destruir tua relação com o mundo das palavras. Todavia eu aprendi a não me desesperar com isto. Já fiquei anos apoiado na dupla falta de ideias e falta de ânimo.
Foram 4 anos sem escrever uma linha. Foi o período onde morreu o poeta e nasceu o cronista. Foi como abandonar uma casca e sentir outra nascer. Período onde observei demais tudo a minha volta. Período onde cresci, abandonei parcialmente o jeito rebuscado de escrever, e me vi comentando - sem doçura e romantismo, o "corriqueiro cotidiano do dia a dia".
Mas pensei que jamais conseguiria voltar a escrever. Entristeci com isso, mas nunca me desesperei. Tinha certeza absoluta que este período de nada duraria o tempo que fosse e passaria. E, mesmo que durasse o resto da vida, não seria caso de lamentação. Seria o período certo e preciso para uma mudança efetiva do meu ser. Ainda que fosse do lugar nenhum para o nada e de nada para lugar nenhum.
Aprendi nestes anos de desinspiração que é possível escolher entre, num momento de nada, escrever algo relevante ou, simplesmente, encher linhas, folhas, linguiça.
E hoje consigo escrever nada, com profundidade e relevância. E sem ser socrático.
Entretanto, hoje (dia dedicado a comer peixe, ficar com a família um pouquinho e refletir sobre a vida) nenhuma ideia me ocorreu.
Assim resolvi escrever sobre o nada. A situação que passo hoje já me causou pânico (principalmente no tempo - distante - em que me dedicava a escrever poesias), pois a falta de ideias pode destruir tua relação com o mundo das palavras. Todavia eu aprendi a não me desesperar com isto. Já fiquei anos apoiado na dupla falta de ideias e falta de ânimo.
Foram 4 anos sem escrever uma linha. Foi o período onde morreu o poeta e nasceu o cronista. Foi como abandonar uma casca e sentir outra nascer. Período onde observei demais tudo a minha volta. Período onde cresci, abandonei parcialmente o jeito rebuscado de escrever, e me vi comentando - sem doçura e romantismo, o "corriqueiro cotidiano do dia a dia".
Mas pensei que jamais conseguiria voltar a escrever. Entristeci com isso, mas nunca me desesperei. Tinha certeza absoluta que este período de nada duraria o tempo que fosse e passaria. E, mesmo que durasse o resto da vida, não seria caso de lamentação. Seria o período certo e preciso para uma mudança efetiva do meu ser. Ainda que fosse do lugar nenhum para o nada e de nada para lugar nenhum.
Aprendi nestes anos de desinspiração que é possível escolher entre, num momento de nada, escrever algo relevante ou, simplesmente, encher linhas, folhas, linguiça.
E hoje consigo escrever nada, com profundidade e relevância. E sem ser socrático.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Mais Menos.
Ora direis: no que tange a fadiga, estou devidamente abastecido. E, de solavanco em solavanco de cada tecla que uso para juntar palavras, posso afirmar que tal canseira já foi muito maior, a ponto de acreditar em meu perecimento.
Então? A fórmula? Não aumentei minhas horas de sono ou restringi minhas atividades, muito pelo contrário. Estou a fazer mais coisas e dormindo menos do que no ano passado.
O que pode ter ocorrido para a súbita redução da canseira? Modificou a alimentação? Respondo: sim. Aumentar a ingestão de legumes, frutas e verduras; alimentar-se quase que exclusivamente de fontes integrais de carboidratos; reduzir drasticamente a ingesta de alimentos de origem animal (exceto leite e queijos); praticamente eliminar o consumo de doces; tomar 20 copos de água diários... Tais medidas diminuíram sobremaneira meu cansaço.
E só isso? Não: nas duas últimas semanas passei a caminhar uma hora por dia em média. Confesso que tem dias que a coluna dói muito e não dá para concluir o trajeto proposto. Confesso que fico "garrado num ódio" ao caminhar. Mas a minha respiração e meu sono melhoraram muito depois disso.
Agora, para mim, o principal fato que fez minha sensação de cansaço diminuir, foi a administração (por mim mesmo, mas com a devida orientação médica) de quinze unidades de insulina por dia. Assusta e limita a vida a agulhada noturna na barriga, mas a redução dos índices glicêmicos pela metade. Diminuir a tensão circulante no meu organismo (glicose é energia de alta tensão passando em fio de baixa amperagem) foi fundamental para me sentir menos cansado. Sem insulina diária seria impossível.
Ainda sinto dores no peito e falta de ar. Ainda tenho dores na juntas. A dor de cabeça está aqui. A dor na coluna e no quadril estão presentes. Ainda sinto muita fome. Ainda estou cansado... Mais menos. E sinto que não vou morrer no dia seguinte.
Aguardo ansioso pelos próximos meses.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Assumir tímido.
E eu? Eu arrastava um caminhão por ela. Meu coração vinha na garganta quando ela chegava perto de mim. Me controlava para falar sem transparecer gagueira e escondia as mãos para que não visse o tremor. Não era fácil.
Estava eu cursando o finado curso magistério e minha fama não era das melhores. Eu parecia uma cigarra doida de tanto que cantava todo mundo. Como tudo na minha vida foram milhares de nãos e um punhadinho de sins. Era sem vergonha no último tom.
Mas com ela era diferente. Não conseguia ser descarado. Não conseguia abrir a boca. E eu, com fama e jeito de atirado, me descobri tímido aos 16 anos de idade.
Daí então fui virando amigo e confidente.
Ela relatava as dificuldades da vida e eu ouvia, aconselhava. Mais perto que cheguei de conseguir algo foi uns beijos no rosto e um abraço, que para ela era de gratidão.
Fui ao seu portão por duas vezes, mas faltou coragem para tocar a campainha. Fiz carta e invadi sua sala de aula para colocar em seu caderno: não consegui. Mudei meu itinerário, só para ficar a sós e me declarar... Nada. Até flores comprei. Foram para o lixo junto com minha coragem.
Me formei um ano antes, mas foram telefonemas e visitas na escola para vê-la. Adorei estar presente na formatura dela. Fiquei do lado. Mas, na hora de contar, não consegui.
O tempo passou e a vida tomou seu rumo. Me assumi tímido, casei, formei família, sou feliz.
Graças a tecnologia reencontrei a menina. Ela seguiu sua vida e vive como a vida permite. Finalmente contei esta saga para ela... Vinte e poucos anos depois. Declarou-se surpresa. E eu? Eu também: nunca imaginei que teria coragem.
Adolescente era meio besta antigamente. Se é que não sou adolescente até hoje.
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