Na postagem que fiz sobre samba e pagode prometi que voltaria ao tema. Então vou cumprir minha promessa.
Mas, antes de começar, quero deixar claro que não vou estabelecer uma cronologia ou contar as coisas preocupado em comprovar fontes ou assemelhados. Vou relatar fatos (verdadeiros ou não) e comenta-los. Apenas isto.
É sabido que o samba tem ascendência africana. Seu nome vem da palavra de origem yorubá (acho) "semba", que significa "umbigada". Porém ele é cria brasileira "na batata". Havia batuque nas senzalas das fazendas espalhadas pelo Brasil do século XVIII e XIX, mas este não era bem visto pelos senhores de engenho por um motivo muito simples: o batuque, rolando até tarde, diminuía a produtividade dos escravos, nas lavouras, no dia seguinte.
Dizer que os senhores de engenho se preocupavam com as manifestações culturais de seus escravos é mentira. Entretanto a religião dos mesmos não era aceita por seu fungo pagão. Assim os negros eram obrigados a professar a religião de seus senhores. Com isto o sincretismo religioso surgiu e os negros cultuavam os santos da igreja católica com as entidades do candomblé, umbanda e outras religiões de origem africana, embaixo de suas imagens e estatuetas.
O mais bacana desta história é que cultos africanos e europeus no Brasil nunca mais foram os mesmos. Serve de exemplo, para isto, a Folia de Reis e as festas para Santo Onofre e São Benedito. Festejos católicos cheios de batuque. Sem falar na crença por Ogum, que move muitos sambistas na atualidade, sincretizado por São Jorge.
Mas não quero falar sobre religião. Mas o Brasil é a esquina do mundo onde a África e a Europa se encontraram e onde, por mais que os céticos e reacionários de direita ou esquerda possam argumentar contrariamente, a miscigenação aconteceu de forma mais homogênea (ainda que distante da realidade). O samba se constituiu miscigenado, da mesma maneira que a religião.
Afirmo isto porque a estrutura melódica do samba é de origem europeia. Nos tempos do Império e no inicio da República, o Brasil era o país da polca e da valsa. Tudo porque o registro musical eram as partituras e o conhecimento erudito de música, salvo raríssimas exceções, pertencia a classe dominante e branca.
Maestros do início do século XX começaram a escrever lundus e outros ritmos de origem africana. Chiquinha Gonzaga, com sua canção"Corta Jaca" (considerado erótica e indecente naquela época) foi um expoente desta miscigenação. Pianos, flautas, violinos, ganzás, xequerés e tambores se encontraram e nunca mais se largaram.
A música africana, lentamente, ganhou salões da sociedade... Mas ainda não era samba. Se tornou samba com a canção de Donga, "Pelo Telefone". Mas isto eu deixo para contar na próxima.