domingo, 23 de fevereiro de 2014

A história é assim.

Na postagem que fiz sobre samba e pagode prometi que voltaria ao tema. Então vou cumprir minha promessa.
Mas, antes de começar, quero deixar claro que não vou estabelecer uma cronologia ou contar as coisas preocupado em comprovar fontes ou assemelhados. Vou relatar fatos (verdadeiros ou não) e comenta-los. Apenas isto.
É sabido que o samba tem ascendência africana. Seu nome vem da palavra de origem yorubá (acho) "semba", que significa "umbigada". Porém ele é cria brasileira "na batata". Havia batuque nas senzalas das fazendas espalhadas pelo Brasil do século XVIII e XIX, mas este não era bem visto pelos senhores de engenho por um motivo muito simples: o batuque, rolando até tarde, diminuía a produtividade dos escravos, nas lavouras, no dia seguinte.
Dizer que os senhores de engenho se preocupavam com as manifestações culturais de seus escravos é mentira. Entretanto a religião dos mesmos não era aceita por seu fungo pagão. Assim os negros eram obrigados a professar a religião de seus senhores. Com isto o sincretismo religioso surgiu e os negros cultuavam os santos da igreja católica com as entidades do candomblé, umbanda e outras religiões de origem africana, embaixo de suas imagens e estatuetas.
O mais bacana desta história é que cultos africanos e europeus no Brasil nunca mais foram os mesmos. Serve de exemplo, para isto, a Folia de Reis e as festas para Santo Onofre e São Benedito. Festejos católicos cheios de batuque. Sem falar na crença por Ogum, que move muitos sambistas na atualidade, sincretizado por São Jorge.
Mas não quero falar sobre religião. Mas o Brasil é a esquina do mundo onde a África e a Europa se encontraram e onde, por mais que os céticos e reacionários de direita ou esquerda possam argumentar contrariamente, a miscigenação aconteceu de forma mais homogênea (ainda que distante da realidade). O samba se constituiu miscigenado, da mesma maneira que a religião.
Afirmo isto porque a estrutura melódica do samba é de origem europeia. Nos tempos do Império e no inicio da República, o Brasil era o país da polca e da valsa. Tudo porque o registro musical eram as partituras e o conhecimento erudito de música, salvo raríssimas exceções, pertencia a classe dominante e branca.
Maestros do início do século XX começaram a escrever lundus e outros ritmos de origem africana. Chiquinha Gonzaga, com sua canção"Corta Jaca" (considerado erótica e indecente naquela época) foi um expoente desta miscigenação. Pianos, flautas, violinos, ganzás, xequerés e tambores se encontraram e nunca mais se largaram.
A música africana, lentamente, ganhou salões da sociedade... Mas ainda não era samba. Se tornou samba com a canção de Donga, "Pelo Telefone". Mas isto eu deixo para contar na próxima.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Coisinhas miúdas

A queixa sobre a corrupção no Brasil é geral. Esta tinhosa nos leva tempo, dinheiro, saúde e, principalmente, a esperança. A corrupção derrete utopias e sonhos, maculando a fé das pessoas nas instituições e, sobremaneira, na humanidade.
Mas eu não conheço nenhum ser humano que não seja pertencente da raça humana. Nascemos de humanos e humanos somos. Porém, mesmo com este cenário de desesperança, não vejo ninguém perder a fé em si mesmo e todos se orgulham em se apresentarem como bastiões da honra e da decência.
E como macacos apontando o rabo alheio, as pessoas se acusam e falam dos atos de frouxidão de caráter do outro. Ou alardeiam seus atos pouco nobres como esperteza, levar vantagem. Este comportamento é humano e fácil de ser identificado pelo mundo inteiro. Do pólo norte ao pólo sul, de Brasília a Vladivostok, não livra ninguém. Mas no Brasil a coisa é um pouco mais profunda.
Isto decorre pelo fato da capacidade de estranheza do brasileiro diante a corrupção ser praticamente nula. Assim formamos um relicário nada honroso de corrupções miúdas que, na vista da população, são normais. Vou listar alguns exemplos: furar fila, jogar lixo na rua, fingir dormir quando ocupa assento preferencial no transporte público, afirmar-se grávida para ter preferência, empresas que usam senhores para fazer serviços bancários, motos nos corredores entre os carros, fazer mau uso dos próprios públicos...
Da mesma forma que o usuário de drogas, ninguém começa corrupto fazendo um grande ato. É preciso amolecer a carne, acostumar o corpo, achar normal a corrupção para fazê-la. O grande corrupto que vira notícia começou criança, colocando brigadeiro nos bolsos com algum adulto o felicitando pelo ato de esperteza. No Brasil (assim como na maioria dos países latinos) a corrupção é endêmica.
Daí surgirá um Messias dizendo que a escola deve dar conta disto, faxinando a corrupção do país. Não acredito, modestamente, que isto seja missão da escola, até porque a escola é um sistema do Estado e, no Brasil, ganha-se muito mais com a corrupção do que se perde. No dia em que o prejuízo for maior que o lucro, a corrupção sumirá: na base da porrada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Minha explicação (de uma vez por todas).

Não sou nenhum crítico ou historiador musical. Portanto as próximas linhas são baseadas na minha percepção sobre a realidade. Mas também sei que muitos críticos e historiadores compactuam da minha opinião, então posso deixar registrada minhas ideias sem medo do escárnio e do mal dizer público.
Há anos que eu ouço a pergunta "mas qual é a diferença entre samba e pagode?" Vou responder. Entretanto faz-se necessárias algumas explicações.
A palavra pagode é de origem portuguesa. É o nome que recebe a torre de múltiplas beiradas utilizada com templos nas religiões xintoístas, sendo a mais conhecida o budismo, do Oriente. No Vietnã (acredite) a palavra pagode foi incorporada ao idioma local e designa local de trabalho.
Pagode também foi o nome dado a moeda que circulou no sul da Índia nos idos do século XVII. É possível encontrar este verbete na Índia, Nepal, Vietnã, Malásia, China, Coréias e Japão.
No Brasil, a palavra pagode foi utilizada para designar o estilo de tocar viola do famoso Tião Carreiro. Certamente o mais virtuoso e criativo músico do planeta que já empunhou uma viola caipira. É uma mistura do ritmo do coco com origem pernambucana, do calango de roda, de ascendência goiana, o primeiro tocado com violão, e o segundo, com a viola. Tião Carreiro inventou este ritmo em 1959 e (como tudo que Tião Carreiro inventou para a viola) permanece atual nas rodas de música caipira até hoje.
Falando em roda chegamos ao sentido propagado como pagode, criado entre meados da década de 70 do século passado: uma reunião de amigos tendo o samba de roda. Este jeito de fazer samba é baseado em versos de improviso e pouca (ou nenhuma) sonorização. O samba de roda era encontrado, na sua origem, no recôncavo baiano e no Rio de Janeiro. Hoje em dia está espalhado pelo Brasil.
Este jeito de fazer samba é muito popular até hoje e os locais onde eles aconteciam eram chamados de pagodes. Muitos historiadores afirmam que esta reunião originou um novo tipo de samba, uma variedade do samba, nos anos 80, que sua modernização (graças a sanha comercial da indústria fonográfica) gerou o pagode ouvido nas rádios hoje em dia. Não concordo com isso, pois seja o samba antigo ou este de hoje em dia, a célula rítmica é a mesma, não se configurando, então, como estilo ou gênero musical. 
Então você faz pagode quando festeja com música. E daí vale forró, rock, música sertaneja ou heavy metal. Reunir-se com música é um pagode. Samba é o estilo musical mais famoso do Brasil, que já sofreu diversos ataques para sua descaracterização: ser considerado coisa de marginal, a ascensão da bossa nova, sua ligação com o universo contraventor do jogo do bicho e o samba novo de hoje em dia chamado erroneamente de pagode. Mas isto é assunto para outro texto. Entenderam agora?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cansado.

Um belo dia você acorda e não olha para a janela. Sabendo que a visão será a mesma de todos os dias e quem ninguém ligará para seu olhar em direção a janela você não perderá tempo olhando para a mesma rua, com as mesmas árvores e carros passando. Você olha no espelho e vê o mesmo rosto cansado e enrugado de alguns anos. É engraçado pois faz anos que você olha no espelho e não se reconhece, pois aquele rosto cheio de rugas não é seu retrato. Se é para ver alguém que não é você no espelho e ainda se deparar com uma imagem feia toda manhã, é melhor não olhar. Desta forma você decide: não olhará mais no espelho.
Café da manhã: pão, leite, café, margarina, fruta, remédio... Parece roteiro. O problema é que, depois de alguns anos seguidos nesta fórmula, mesmo variando algumas vezes, você descobre que o pão faz mal, o leite é nocivo, o café causa dependência, a margarina é gordurosa e a fruta... Ah, a fruta... Bem, a fruta é saudável, mas não tem graça nenhuma. O pior é que você descobre que se você não comer pode não tomar o remédio que te faz tanto mal. Dai você decide não tomar mais o café da manhã e, visto que ninguém se importa, você levanta da mesa e vai trabalhar.
Você faz o mesmo caminho para o trabalho há anos. Mesmo trajeto a pé, mesmo ponto, mesmo ônibus, mesmo trajeto a pé, mesmo horário para colocar a mão na maçaneta, mesmo bom dia para as mesmas pessoas que sabem que você vai desejar o mesmo bom dia. E as mesmas pessoas não vão responder teu bom dia e vão cochichar que seu bom dia é dado somente por educação. A educação não esta valendo nada mesmo. Que tal optar por não fazer o trajeto a pé, não ficar no ponto, não embarcar no ônibus, não fazer o mesmo trajeto a pé e não colocar a mão na maçaneta. Quanto ao bom dia: foda-se! Por sinal um foda-se, para a maioria das pessoas, seria muito mais adequado que um bom dia. pelo menos elas falariam de sua falta de educação com subsídios.
Desta forma, visto que ninguém se importa, você decide sair pelo mundo a esmo. Em poucas horas você descobre quem gosta de você. O silêncio está com você.
Então você para e pensa no quanto você fez por todos que estavam a sua volta. Domingo de manhã você acorda cedo e decide fazer o almoço. Pensa nos detalhes de cada prato e parte para elaboração com detalhes. Depois de uma hora e meia no mercado e duas horas de dedicação as preparações as pessoas consomem o almoço sem tecer nenhum comentário, a não ser, no final, se queixando que você não arrumou as camas, sujou o chão e deixou a pia cheia de louça. Visto que ninguém pediu almoço, você que arrume a bagunça que fez e que não não fez. E quanto ao almoço, que comam pão da próxima vez, que suja pouco e é uma delícia.
Você se descobre cansado e, já que está sozinho, percebe que seu cansaço não faz diferença para ninguém. Bem que alguém poderia se importar com você, visto que a vida inteira você se importou com os outros. Um pouco de egoísmo não faria mal, ainda que seja por cansaço.