domingo, 26 de janeiro de 2014

Últimos Fatos.

A moça chega com seus filhos e senta no banco da praça. O playground é novo e disputado num sábado a tarde de sol. As crianças correm para os brinquedos e ela procura uma forma de mantê-los em seu campo de visão. Gangorra, balanço, escorregador, gritos e risos. Felicidade de recrear depois de uma semana cheia.
Do outro lado da rua tem um shopping. Lá chegam alguns adolescentes que olham vitrines, compram algumas roupas, vão ao cinema, usam a praça de alimentação. Depois de algumas horas vão embora e se preparam para uma semana de trabalho, estudos, de atividade.
Atrás de shopping tem um Centro de Convivência onde os jovens da melhor idade, na maioria, jogam dominó, frequentam a biblioteca e conversam animadamente. Muitos tem obrigações fixas durante a semana e aproveitam o sábado para momentos de diversão.
Vem a noite e os bares ficam cheios de jovens para a badalação. Olhares, cervejas, música... Diversão sempre.
Nenhum problema em trocar espaços e personagens de lugar. Continuaríamos com pessoas se divertindo. 
A questão é que os últimos fatos querem determinar que o espaço de diversão de cada classe social deve ser delimitado. Estamos onde? Na Índia do século XIX, com sua sociedade de castas? Na África do Sul do apartheid? No Brasil da hiper inflação? Tem muita gente saudosa por um tempo onde o progresso só viria com a ordem, estabelecida pela minoria que usava roupa de grife e comia no fast food.
No mundo de hoje temos que acreditar na igualdade e na tolerância - valores que precisamos propagar urgentemente - até por uma questão de sobrevivência. E que as pessoas possam frequentar praças, shoppings, bares, bibliotecas... sem perguntar de qual bairro vem ou seu poder aquisitivo, como neste texto.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Pelo interior.

Sair da loucura da cidade grande é um exercício difícil para um cidadão essencialmente contaminado pela loucura da metrópole é uma tarefa difícil, mas é de uma importância incomum. Tudo porque, na cidade pequena, podemos verificar o quanto que a vida no grande centro te afasta da humanidade e te empurra para uma incivilidade sem parâmetros.
É interessante passear nas ruas da cidade pequena e ser fitado pelos olhos de todos e ganhar um “bom dia” despretensioso quando seu olhar cruza outro.  Passar no comércio e ver os atendentes fazendo seu trabalho sem pressa de forma cortês; as pessoas puxando conversa, mesmo você sendo desconhecido; crianças brincando na praça...  Sentir estas coisas não tem preço.
Não tem preço porque tal conduta é a essência do convívio em sociedade. Se hoje temos cidades grandes e pequenas e não a barbárie instalada e gente comendo gente, graças a habilidade de comunicação e a conversa entre as pessoas.
Mas não temos somente pessoas: pelo interior admiramos paisagens naturais, algumas singelas e outras de tirar o fôlego. Flores numa invernada ou uma imensa serra, rios, córregos, represas... Ar puro e clima aprazível são fundamentais para recarregarmos as baterias e ainda termos estranheza diante das barbáries das paisagens modificadas pelo ser humano, que também são belas e necessárias, mas o criador jamais será superado pela criatura.

Pessoas, natureza e vida simples. Tão essencial e tão difícil de conseguir.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Na mesa.

Há quanto tempo será que este artefato faz parte da rotina humana? Fiz uma breve pesquisa e não consegui descobrir. Acredito que, no tempos das cavernas, quando o ser humano, ainda com ferramentas incipientes, necessitou erguer alguma caça ou fruta do chão para melhor lidar com ela, colocando-a sobre uma pedra lisa, deu-se a invenção. Dai a fazer as refeições sobre elas, espantando formigas e sem necessidade de arquear o corpo, deve ter demorado alguma dezenas ou milhares de anos, entretanto a mesa - assim como a roda - jamais deixou de participar do nosso cotidiano.
Mas não só as refeições, das mais corriqueiras as mais abastadas, têm como coadjuvante a mesa. Seja com um, dois, três ou mais pés ela participa da vida dos humanos quase de forma onipresente. Está na escola, colaborando na formação e no acesso ao conhecimento das gerações. Está nas empresas, apoiando equipamentos e organizando reuniões. Tem mesa nos parques, nos cantos das salas, nos templos, nas festas. A mesa é de sorte quando se fecha um bom negócio ou de azar quando tem dominó ou baralho sobre ela. Mesa presente em momentos alegres e tristes.
Até o samba de mesa se rendeu a suas aplicações. A mesa congraça e une as pessoas. Se tudo correr bem você, que veio ao mundo, provavelmente, numa mesa de hospital, será saudado e recebido na Eternidade depois de ser velado sobre a mesa numa capela ou cemitério.
Então: todos à mesa para rir ou chorar, ganhar ou perder... viver.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sucesso.

A apresentadora de TV chama o rapaz com entusiasmo. A plateia o recebe com histeria. Ele canta uma, duas músicas e sai do estúdio de gravação com todos afirmando que ele "é sucesso". Mas o rapaz em questão está triste com a vida agitada que leva e sente saudade da família que mora numa cidade pequena e distante do interior. Usa drogas para aliviar o vazio. 

O médico chega atrasado no consultório - que está muito cheio - e, após um bom dia, de passagem, para sua equipe, atende seus pacientes por quatro horas seguidas. Depois de um almoço corrido, ele vai participar de um programa feminino de TV. Depois vai atender no hospital, realiza duas cirurgias com absoluto sucesso, conversa com os residentes... Chega em casa no início da madrugada. Excelente médico, com carreira de sucesso, mas não consegue ter bom relacionamento com seus filhos e esposa. Por sinal, mesmo com todo conforto que seu marido médico proporciona, sua esposa está tentada a deixá-lo. "Ele já está ausente mesmo"! Ela afirma, regando as palavras com muito uísque e cobrando, cobrando, cobrando...

O operário acorda muito cedo. Sua esposa faxineira também. Seus filhos também. A rotina da família suburbana começa muito cedo e numa velocidade absurda: despachar as crianças para a creche (onde ficarão o dia inteiro), ônibus lotado para ambos, quatro horas de trabalho seguido em frente da máquina de embalar para ele, quatro horas de trabalho seguido com vassouras e panos. Comida de marmita no almoço, tarde igual a manhã, ônibus lotado de novo, pegar a criançada na creche e voltar para casa. É uma vida de sucesso.

Sucesso sim, pois a família se senta a mesa a noite e, após o jantar humilde, conversam, dão risada, dão força um ao outro. No final de semana tem tempo para andar de bicicleta, reunião de cosméticos, futebol e cerveja, igreja... Se gostam e a harmonia é visível.

E o mais importante: no final do mês as contas estão pagas e a vida dura prossegue, na certeza que que os filhos serão pessoas de bem, moldadas na lisura e na honestidade. Este é o maior sinal de sucesso.