domingo, 2 de março de 2014

A ditadura democrática.

Estive pensando no mundo atual e, conforme muitos reacionários espalham por ai, vivemos tempos difíceis. Não acharia estranho acordar de manhã, abrir a janela e ver o céu púrpura ao invés de azul, um cheiro forte de enxofre no ar e os cavaleiros do Apocalipse singrando o firmamento.
O pior deste cenário é que ele seria encarado como normal pela maioria das pessoas e ninguém lutaria conta o fim dos tempos. Talvez alguns ajoelhariam e pediriam clemência, outros iam enlouquecer e fariam tudo que viesse a cabeça. Mas todos aceitariam os mandamentos divinos e curtiriam o encerramento da civilização sem oferecer nenhuma resistência.
Creio que o Apocalipse não chegará. Entretanto as coisas estão tão insanas atualmente que somente acreditando nele para não enlouquecer. Digo isto por conta dos últimos fatos que a política, nacional e internacional, criaram.
Não vou repetir tais fatos, mas preciso frisar a reação das pessoas diante deles: imobilismo.
Um governo eficiente é aquele que pulveriza sua oposição e pode desenvolver teu projeto (seja para o bem de todos ou para teu próprio bem) sem sobressaltos. Para acabar com a oposição, ao longo dos tempos, governantes determinaram genocídios, perseguições, escárnios...
Mas atualmente isto ocorre em diversas lugares do mundo e da mesma maneira: o conchavo político. Este conchavo e a troca de favores permite que o governo torne-se perpétuo. Todos sentam do mesmo lado da mesa, seja oposição ou situação. Até o povo, pelo planeta a fora, é comprado e levado a acreditar que o mundo, como afirmam filósofos e pensadores, encerrou sua história e que o negócio é viver sem lutar, pois alcançamos a Utopia.
O pior é que tudo acontece com eleições e apoio da maioria. A ditadura democrática é a mais nova forma de governo.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A história é assim.

Na postagem que fiz sobre samba e pagode prometi que voltaria ao tema. Então vou cumprir minha promessa.
Mas, antes de começar, quero deixar claro que não vou estabelecer uma cronologia ou contar as coisas preocupado em comprovar fontes ou assemelhados. Vou relatar fatos (verdadeiros ou não) e comenta-los. Apenas isto.
É sabido que o samba tem ascendência africana. Seu nome vem da palavra de origem yorubá (acho) "semba", que significa "umbigada". Porém ele é cria brasileira "na batata". Havia batuque nas senzalas das fazendas espalhadas pelo Brasil do século XVIII e XIX, mas este não era bem visto pelos senhores de engenho por um motivo muito simples: o batuque, rolando até tarde, diminuía a produtividade dos escravos, nas lavouras, no dia seguinte.
Dizer que os senhores de engenho se preocupavam com as manifestações culturais de seus escravos é mentira. Entretanto a religião dos mesmos não era aceita por seu fungo pagão. Assim os negros eram obrigados a professar a religião de seus senhores. Com isto o sincretismo religioso surgiu e os negros cultuavam os santos da igreja católica com as entidades do candomblé, umbanda e outras religiões de origem africana, embaixo de suas imagens e estatuetas.
O mais bacana desta história é que cultos africanos e europeus no Brasil nunca mais foram os mesmos. Serve de exemplo, para isto, a Folia de Reis e as festas para Santo Onofre e São Benedito. Festejos católicos cheios de batuque. Sem falar na crença por Ogum, que move muitos sambistas na atualidade, sincretizado por São Jorge.
Mas não quero falar sobre religião. Mas o Brasil é a esquina do mundo onde a África e a Europa se encontraram e onde, por mais que os céticos e reacionários de direita ou esquerda possam argumentar contrariamente, a miscigenação aconteceu de forma mais homogênea (ainda que distante da realidade). O samba se constituiu miscigenado, da mesma maneira que a religião.
Afirmo isto porque a estrutura melódica do samba é de origem europeia. Nos tempos do Império e no inicio da República, o Brasil era o país da polca e da valsa. Tudo porque o registro musical eram as partituras e o conhecimento erudito de música, salvo raríssimas exceções, pertencia a classe dominante e branca.
Maestros do início do século XX começaram a escrever lundus e outros ritmos de origem africana. Chiquinha Gonzaga, com sua canção"Corta Jaca" (considerado erótica e indecente naquela época) foi um expoente desta miscigenação. Pianos, flautas, violinos, ganzás, xequerés e tambores se encontraram e nunca mais se largaram.
A música africana, lentamente, ganhou salões da sociedade... Mas ainda não era samba. Se tornou samba com a canção de Donga, "Pelo Telefone". Mas isto eu deixo para contar na próxima.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Coisinhas miúdas

A queixa sobre a corrupção no Brasil é geral. Esta tinhosa nos leva tempo, dinheiro, saúde e, principalmente, a esperança. A corrupção derrete utopias e sonhos, maculando a fé das pessoas nas instituições e, sobremaneira, na humanidade.
Mas eu não conheço nenhum ser humano que não seja pertencente da raça humana. Nascemos de humanos e humanos somos. Porém, mesmo com este cenário de desesperança, não vejo ninguém perder a fé em si mesmo e todos se orgulham em se apresentarem como bastiões da honra e da decência.
E como macacos apontando o rabo alheio, as pessoas se acusam e falam dos atos de frouxidão de caráter do outro. Ou alardeiam seus atos pouco nobres como esperteza, levar vantagem. Este comportamento é humano e fácil de ser identificado pelo mundo inteiro. Do pólo norte ao pólo sul, de Brasília a Vladivostok, não livra ninguém. Mas no Brasil a coisa é um pouco mais profunda.
Isto decorre pelo fato da capacidade de estranheza do brasileiro diante a corrupção ser praticamente nula. Assim formamos um relicário nada honroso de corrupções miúdas que, na vista da população, são normais. Vou listar alguns exemplos: furar fila, jogar lixo na rua, fingir dormir quando ocupa assento preferencial no transporte público, afirmar-se grávida para ter preferência, empresas que usam senhores para fazer serviços bancários, motos nos corredores entre os carros, fazer mau uso dos próprios públicos...
Da mesma forma que o usuário de drogas, ninguém começa corrupto fazendo um grande ato. É preciso amolecer a carne, acostumar o corpo, achar normal a corrupção para fazê-la. O grande corrupto que vira notícia começou criança, colocando brigadeiro nos bolsos com algum adulto o felicitando pelo ato de esperteza. No Brasil (assim como na maioria dos países latinos) a corrupção é endêmica.
Daí surgirá um Messias dizendo que a escola deve dar conta disto, faxinando a corrupção do país. Não acredito, modestamente, que isto seja missão da escola, até porque a escola é um sistema do Estado e, no Brasil, ganha-se muito mais com a corrupção do que se perde. No dia em que o prejuízo for maior que o lucro, a corrupção sumirá: na base da porrada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Minha explicação (de uma vez por todas).

Não sou nenhum crítico ou historiador musical. Portanto as próximas linhas são baseadas na minha percepção sobre a realidade. Mas também sei que muitos críticos e historiadores compactuam da minha opinião, então posso deixar registrada minhas ideias sem medo do escárnio e do mal dizer público.
Há anos que eu ouço a pergunta "mas qual é a diferença entre samba e pagode?" Vou responder. Entretanto faz-se necessárias algumas explicações.
A palavra pagode é de origem portuguesa. É o nome que recebe a torre de múltiplas beiradas utilizada com templos nas religiões xintoístas, sendo a mais conhecida o budismo, do Oriente. No Vietnã (acredite) a palavra pagode foi incorporada ao idioma local e designa local de trabalho.
Pagode também foi o nome dado a moeda que circulou no sul da Índia nos idos do século XVII. É possível encontrar este verbete na Índia, Nepal, Vietnã, Malásia, China, Coréias e Japão.
No Brasil, a palavra pagode foi utilizada para designar o estilo de tocar viola do famoso Tião Carreiro. Certamente o mais virtuoso e criativo músico do planeta que já empunhou uma viola caipira. É uma mistura do ritmo do coco com origem pernambucana, do calango de roda, de ascendência goiana, o primeiro tocado com violão, e o segundo, com a viola. Tião Carreiro inventou este ritmo em 1959 e (como tudo que Tião Carreiro inventou para a viola) permanece atual nas rodas de música caipira até hoje.
Falando em roda chegamos ao sentido propagado como pagode, criado entre meados da década de 70 do século passado: uma reunião de amigos tendo o samba de roda. Este jeito de fazer samba é baseado em versos de improviso e pouca (ou nenhuma) sonorização. O samba de roda era encontrado, na sua origem, no recôncavo baiano e no Rio de Janeiro. Hoje em dia está espalhado pelo Brasil.
Este jeito de fazer samba é muito popular até hoje e os locais onde eles aconteciam eram chamados de pagodes. Muitos historiadores afirmam que esta reunião originou um novo tipo de samba, uma variedade do samba, nos anos 80, que sua modernização (graças a sanha comercial da indústria fonográfica) gerou o pagode ouvido nas rádios hoje em dia. Não concordo com isso, pois seja o samba antigo ou este de hoje em dia, a célula rítmica é a mesma, não se configurando, então, como estilo ou gênero musical. 
Então você faz pagode quando festeja com música. E daí vale forró, rock, música sertaneja ou heavy metal. Reunir-se com música é um pagode. Samba é o estilo musical mais famoso do Brasil, que já sofreu diversos ataques para sua descaracterização: ser considerado coisa de marginal, a ascensão da bossa nova, sua ligação com o universo contraventor do jogo do bicho e o samba novo de hoje em dia chamado erroneamente de pagode. Mas isto é assunto para outro texto. Entenderam agora?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cansado.

Um belo dia você acorda e não olha para a janela. Sabendo que a visão será a mesma de todos os dias e quem ninguém ligará para seu olhar em direção a janela você não perderá tempo olhando para a mesma rua, com as mesmas árvores e carros passando. Você olha no espelho e vê o mesmo rosto cansado e enrugado de alguns anos. É engraçado pois faz anos que você olha no espelho e não se reconhece, pois aquele rosto cheio de rugas não é seu retrato. Se é para ver alguém que não é você no espelho e ainda se deparar com uma imagem feia toda manhã, é melhor não olhar. Desta forma você decide: não olhará mais no espelho.
Café da manhã: pão, leite, café, margarina, fruta, remédio... Parece roteiro. O problema é que, depois de alguns anos seguidos nesta fórmula, mesmo variando algumas vezes, você descobre que o pão faz mal, o leite é nocivo, o café causa dependência, a margarina é gordurosa e a fruta... Ah, a fruta... Bem, a fruta é saudável, mas não tem graça nenhuma. O pior é que você descobre que se você não comer pode não tomar o remédio que te faz tanto mal. Dai você decide não tomar mais o café da manhã e, visto que ninguém se importa, você levanta da mesa e vai trabalhar.
Você faz o mesmo caminho para o trabalho há anos. Mesmo trajeto a pé, mesmo ponto, mesmo ônibus, mesmo trajeto a pé, mesmo horário para colocar a mão na maçaneta, mesmo bom dia para as mesmas pessoas que sabem que você vai desejar o mesmo bom dia. E as mesmas pessoas não vão responder teu bom dia e vão cochichar que seu bom dia é dado somente por educação. A educação não esta valendo nada mesmo. Que tal optar por não fazer o trajeto a pé, não ficar no ponto, não embarcar no ônibus, não fazer o mesmo trajeto a pé e não colocar a mão na maçaneta. Quanto ao bom dia: foda-se! Por sinal um foda-se, para a maioria das pessoas, seria muito mais adequado que um bom dia. pelo menos elas falariam de sua falta de educação com subsídios.
Desta forma, visto que ninguém se importa, você decide sair pelo mundo a esmo. Em poucas horas você descobre quem gosta de você. O silêncio está com você.
Então você para e pensa no quanto você fez por todos que estavam a sua volta. Domingo de manhã você acorda cedo e decide fazer o almoço. Pensa nos detalhes de cada prato e parte para elaboração com detalhes. Depois de uma hora e meia no mercado e duas horas de dedicação as preparações as pessoas consomem o almoço sem tecer nenhum comentário, a não ser, no final, se queixando que você não arrumou as camas, sujou o chão e deixou a pia cheia de louça. Visto que ninguém pediu almoço, você que arrume a bagunça que fez e que não não fez. E quanto ao almoço, que comam pão da próxima vez, que suja pouco e é uma delícia.
Você se descobre cansado e, já que está sozinho, percebe que seu cansaço não faz diferença para ninguém. Bem que alguém poderia se importar com você, visto que a vida inteira você se importou com os outros. Um pouco de egoísmo não faria mal, ainda que seja por cansaço.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Últimos Fatos.

A moça chega com seus filhos e senta no banco da praça. O playground é novo e disputado num sábado a tarde de sol. As crianças correm para os brinquedos e ela procura uma forma de mantê-los em seu campo de visão. Gangorra, balanço, escorregador, gritos e risos. Felicidade de recrear depois de uma semana cheia.
Do outro lado da rua tem um shopping. Lá chegam alguns adolescentes que olham vitrines, compram algumas roupas, vão ao cinema, usam a praça de alimentação. Depois de algumas horas vão embora e se preparam para uma semana de trabalho, estudos, de atividade.
Atrás de shopping tem um Centro de Convivência onde os jovens da melhor idade, na maioria, jogam dominó, frequentam a biblioteca e conversam animadamente. Muitos tem obrigações fixas durante a semana e aproveitam o sábado para momentos de diversão.
Vem a noite e os bares ficam cheios de jovens para a badalação. Olhares, cervejas, música... Diversão sempre.
Nenhum problema em trocar espaços e personagens de lugar. Continuaríamos com pessoas se divertindo. 
A questão é que os últimos fatos querem determinar que o espaço de diversão de cada classe social deve ser delimitado. Estamos onde? Na Índia do século XIX, com sua sociedade de castas? Na África do Sul do apartheid? No Brasil da hiper inflação? Tem muita gente saudosa por um tempo onde o progresso só viria com a ordem, estabelecida pela minoria que usava roupa de grife e comia no fast food.
No mundo de hoje temos que acreditar na igualdade e na tolerância - valores que precisamos propagar urgentemente - até por uma questão de sobrevivência. E que as pessoas possam frequentar praças, shoppings, bares, bibliotecas... sem perguntar de qual bairro vem ou seu poder aquisitivo, como neste texto.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Pelo interior.

Sair da loucura da cidade grande é um exercício difícil para um cidadão essencialmente contaminado pela loucura da metrópole é uma tarefa difícil, mas é de uma importância incomum. Tudo porque, na cidade pequena, podemos verificar o quanto que a vida no grande centro te afasta da humanidade e te empurra para uma incivilidade sem parâmetros.
É interessante passear nas ruas da cidade pequena e ser fitado pelos olhos de todos e ganhar um “bom dia” despretensioso quando seu olhar cruza outro.  Passar no comércio e ver os atendentes fazendo seu trabalho sem pressa de forma cortês; as pessoas puxando conversa, mesmo você sendo desconhecido; crianças brincando na praça...  Sentir estas coisas não tem preço.
Não tem preço porque tal conduta é a essência do convívio em sociedade. Se hoje temos cidades grandes e pequenas e não a barbárie instalada e gente comendo gente, graças a habilidade de comunicação e a conversa entre as pessoas.
Mas não temos somente pessoas: pelo interior admiramos paisagens naturais, algumas singelas e outras de tirar o fôlego. Flores numa invernada ou uma imensa serra, rios, córregos, represas... Ar puro e clima aprazível são fundamentais para recarregarmos as baterias e ainda termos estranheza diante das barbáries das paisagens modificadas pelo ser humano, que também são belas e necessárias, mas o criador jamais será superado pela criatura.

Pessoas, natureza e vida simples. Tão essencial e tão difícil de conseguir.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Na mesa.

Há quanto tempo será que este artefato faz parte da rotina humana? Fiz uma breve pesquisa e não consegui descobrir. Acredito que, no tempos das cavernas, quando o ser humano, ainda com ferramentas incipientes, necessitou erguer alguma caça ou fruta do chão para melhor lidar com ela, colocando-a sobre uma pedra lisa, deu-se a invenção. Dai a fazer as refeições sobre elas, espantando formigas e sem necessidade de arquear o corpo, deve ter demorado alguma dezenas ou milhares de anos, entretanto a mesa - assim como a roda - jamais deixou de participar do nosso cotidiano.
Mas não só as refeições, das mais corriqueiras as mais abastadas, têm como coadjuvante a mesa. Seja com um, dois, três ou mais pés ela participa da vida dos humanos quase de forma onipresente. Está na escola, colaborando na formação e no acesso ao conhecimento das gerações. Está nas empresas, apoiando equipamentos e organizando reuniões. Tem mesa nos parques, nos cantos das salas, nos templos, nas festas. A mesa é de sorte quando se fecha um bom negócio ou de azar quando tem dominó ou baralho sobre ela. Mesa presente em momentos alegres e tristes.
Até o samba de mesa se rendeu a suas aplicações. A mesa congraça e une as pessoas. Se tudo correr bem você, que veio ao mundo, provavelmente, numa mesa de hospital, será saudado e recebido na Eternidade depois de ser velado sobre a mesa numa capela ou cemitério.
Então: todos à mesa para rir ou chorar, ganhar ou perder... viver.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sucesso.

A apresentadora de TV chama o rapaz com entusiasmo. A plateia o recebe com histeria. Ele canta uma, duas músicas e sai do estúdio de gravação com todos afirmando que ele "é sucesso". Mas o rapaz em questão está triste com a vida agitada que leva e sente saudade da família que mora numa cidade pequena e distante do interior. Usa drogas para aliviar o vazio. 

O médico chega atrasado no consultório - que está muito cheio - e, após um bom dia, de passagem, para sua equipe, atende seus pacientes por quatro horas seguidas. Depois de um almoço corrido, ele vai participar de um programa feminino de TV. Depois vai atender no hospital, realiza duas cirurgias com absoluto sucesso, conversa com os residentes... Chega em casa no início da madrugada. Excelente médico, com carreira de sucesso, mas não consegue ter bom relacionamento com seus filhos e esposa. Por sinal, mesmo com todo conforto que seu marido médico proporciona, sua esposa está tentada a deixá-lo. "Ele já está ausente mesmo"! Ela afirma, regando as palavras com muito uísque e cobrando, cobrando, cobrando...

O operário acorda muito cedo. Sua esposa faxineira também. Seus filhos também. A rotina da família suburbana começa muito cedo e numa velocidade absurda: despachar as crianças para a creche (onde ficarão o dia inteiro), ônibus lotado para ambos, quatro horas de trabalho seguido em frente da máquina de embalar para ele, quatro horas de trabalho seguido com vassouras e panos. Comida de marmita no almoço, tarde igual a manhã, ônibus lotado de novo, pegar a criançada na creche e voltar para casa. É uma vida de sucesso.

Sucesso sim, pois a família se senta a mesa a noite e, após o jantar humilde, conversam, dão risada, dão força um ao outro. No final de semana tem tempo para andar de bicicleta, reunião de cosméticos, futebol e cerveja, igreja... Se gostam e a harmonia é visível.

E o mais importante: no final do mês as contas estão pagas e a vida dura prossegue, na certeza que que os filhos serão pessoas de bem, moldadas na lisura e na honestidade. Este é o maior sinal de sucesso.