Então você, depois das inúmeras atividades cotidianas, resolve pegar seu livro de colorir e, com lápis de cor aquarelavel ou tinta guache, dedica um breve tempo do dia para você mesmo em algo que te dá prazer.
Até aí, nada de errado. Na verdade, vou convidá-lo a pensar sobre coisas que não possuem nada de ruim. Os fatos a seguir são consequências da vida moderna, da qual ninguém, com vida urbana ou ligada as atividades citadinas, está livre.
Acordamos cedo e temos tarefas domésticas e profissionais para desempenhar. Todas necessitam de afinco, dedicação, concentração e paciência para serem bem feitas. Temos ainda as tarefas urgentes e emergentes (sempre algo sai fora do script) que tumultuam nossa existência. É o carro que quebra, filha (o) que adoece, pai e mãe que exigem nossa atenção, reunião de última hora...
E tem a academia, o happy hour, a internet, o bate volta na praia... Sempre estamos ocupados. E tal ocupação transcende os momentos da atribulação rotineira. Até nos momentos de lazer e/ou descanso nós temos a obrigação de fazer algo. O ócio deixou de existir na nossa sociedade.
Já faz tempo. Conheci o padre Marcelo Rossi nos meus tempos de Magistério onde toquei em algumas missas com ele. Pessoa da melhor estirpe. Ele jogava futebol todas as quintas a noite. Parava tudo que fazia para jogar bola. Estava marcado na agenda, que ele seguia com retidão. Ele falava que tinha que encarar o lazer como compromisso, senão ele não iria conseguir usufruir do descanso, por estar cansado demais.
Temos que organizar tarefas e ter o que fazer para descansar. Colorir desenhos é, dentro deste prisma, mais uma forma de coibir o "fazer nada" que não tem lugar neste mundo. Não consigo conceber descansar criando mais uma atividades, embora faça isso o tempo todo. Não é a toa que canais de TV estão em falência em todo mundo.
Outra linha de pensamento. O cidadão trabalha feito animal, de sol a sol, num ambiente estressante e é cobrado por resultados constantemente. Sua casa não é um exemplo de harmonia. São poucos amigos. Falta motivação para sair e ver as cores do mundo. Daí ele chega em casa e usa as cores de sua paleta para colorir a felicidade que falta em sua vida.
O quadro é extremo, mas todos nós carecemos de cores na vida pelos mais variados motivos. É raro encontrar alguém plenamente satisfeito com a vida que leva. Colorir desenhos e a chance de substituir o branco ou o cinza interior por cores que despertem sorrisos em nós mesmos.
E vamos além da disputa para ver quem tem o livro mais grosso ou a maior caixa de lápis. Vamos nos permitir o ócio produtivo e a vida menos ocupada e mais colorida.
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