Quando criança não gostava de pintar. Não gostava porque não tinha paciência com os detalhes e com o fato de pintar sempre para o mesmo lado. Não gostava, mas era minoria. Me lembro da sala em silêncio, com todos caprichando e mostrando seus resultados felizes para a professora.
Cresci e escolhi ser professor. Fiz meu curso de Magistério no auge da onda construtivista, onde modelos prontos eram desaconselhados pois tolhiam a criatividade das crianças, embora a professora de Ed. Artística Educacional (acho que era este o nome da matéria) tenha solicitado uma pasta com desenhos mimeografados das datas comemorativas. Não fiz.
Ainda como estagiário (ou operador de mimeógrafo) fui apresentado a livros com diversos modelos de desenhos para os mais variados fins. As professoras passavam para o estêncil e se fazia a reprodução no mimeógrafo a álcool que embriagava quem mexia nele.
Questionei as professoras sobre estes modelos. Ouvi inúmeras razões para uso do desenho para colorir: melhoria da atenção e da concentração, desenvolvimento da "munheca" e da coordenação motora fina (ou restrita), compreensão da estética e combinação de cores, pintar e contornar obedecendo limites...
No meu exercício profissional, por conta da minha inabilidade, usei poucas vezes este recurso. Sempre preferi trabalhar Artes na sala de aula explorando Música e Teatro, mas os alunos, na maioria, adoravam colorir, com maior ou menor habilidade.
Aprendi a não demonizar nenhuma prática em sala de aula. Tudo dá certo e gera aprendizado. Desde que o professor saiba onde quer que seus alunos cheguem e realize as devidas intervenções para tanto.
Mas quando vejo adultos colorindo desenhos prontos (sem chamá-los de releituras, algo absolutamente antipático e plagiante) com especialistas dizendo das vantagens desta prática eu tiro ponto dos construtivistas (ou espontaneístas) e lembro da educação dita tradicional, que tinha seus problemas, mas não podia ter sido suprimida como foi desde o final do século passado.
É... O mundo está estranho. Talvez seja hora de dar um imenso passo para trás e recuperar algumas coisas.
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