sexta-feira, 8 de abril de 2011

Rapina

“Será que sempre foi assim?” Estar na Educação como meio de sustento é algo que faz esta indagação ser recorrente em meu pensar quase não ocupado por assuntos variados e irrelevantes. Indago isso não pelo sistema, que é sabido que não funciona e despeja na sociedade seres que não dominam os preceitos básicos para a vida na comuna. Nem pelo fato das condições insalubres nas quais trabalham os profissionais da Educação para ganhar salários pífios pela função que desempenham (embora eu já tenha dito que o professor é bem remunerado e eu não esteja modificando meu ponto de vista). Muito menos pela solidão do mestre em seu trabalho, maquiada por reuniões de trabalho pedagógico, onde se apregoa o coletivo, mas resplandece a competição e o individualismo. Fico ansioso e “indagativo” graças à matéria prima do nosso trabalho: crianças.
Obviamente não quero generalizar condutas, mas a maioria dos infantes que atendo e vejo circular nos corredores e variados ambientes da escola atendem a um perfil extremamente preocupante para a continuidade da espécie. Se você visitar registros antigos de povos como sumérios, egípcios, mesopotâmios, gregos, dentre outros, que falem sobre a juventude, todos eles falam a mesma coisa: os jovens estão pondo o mundo a perder.
Alguns milênios correram e a humanidade não sucumbiu por conta da juventude. Para alguns ela até melhorou. Juventudes transviadas tornaram-se, sucessivamente, adultos caretas e quadrados ao longo do desenrolar da História e o mundo não se desfez na lascívia ou na guerra. Não acho que os adultos “porra louca” de amanhã, que são as crianças de hoje, vão dar cabo do mundo, porém acho a profecia maia algo absolutamente plausível ao observar o alunado que as escolas que trabalho atende.
É chocante olhar para uma criança que não sorri ou esboça felicidade diante de nenhuma situação. Miúdos apáticos abundam nos bancos escolares e são a alegria de muitos colegas. Eles entram na sala, executam as atividades com relativa maestria, mas são vasos inertes sem flores. Ouve-se apenas o “presente” de suas bocas. São chamados de bonzinhos por alguns: para mim são tão doentes quantos esquizofrênicos e psicóticos.
E o que dizer dos indisciplinados? Faltam as crianças de hoje, nos grandes centros, colocar o pé na terra, subir em árvores, matar e esquartejar pequenos animais, tomar banho peladinho no rio, fazer “mardade” com animais de curral... Estas pequenas traquinagens pareciam funcionar como “fio terra” mandando um pouco do lado inconsciente irracional dos petizes para algum submundo, servindo de alimentação para o Lúcifer. Vejo o tratamento que as crianças indisciplinadas dão para tudo que está a sua volta e acho que o Belzebu está presente para pegar sua cota de ódio fundamental na fonte e, tal qual uma droga de alto poder viciante, necessita de maldades cada vez maiores para nutrir-se, sem direito a grandes percursos daqui até o inferno. O Capeta transferiu-se para cá para fugir do “esfriamento do mundo dos decaídos” visto que a maldade das crianças já se faz suficiente para fazer o Inferno aqui.
O que relatar então sobre o que chamei de “crises coletivas de ausências” Explico: as crianças de hoje parecem desligar do mundo quando a situação é desagradável ou não traz o prazer esperado. Não respondem, desconversam, dissimulam com uma naturalidade adulta e uma desenvoltura que assustam golpistas e meretrizes. Soma-se a isto o fato que o respeito só é válido enquanto estão sob nossa “alça de mira”. Andar olhando para frente ao conduzir uma fila é certeza de luta livre ou uma chuva de impropérios atrás de você. Faço parte da geração de “professores siris”, pois sou obrigado a andar de costas no translado de meus infantes tutelados pela escola. Sabe Deus por qual olho enxergo nestes momentos.
Porém não é nada do relatado até agora que me causa mais estranheza e que serviu de motivação para falar sobre este assunto. Tenho uma aluna em minha turma da tarde neste ano que me assusta terrivelmente. A mocinha tem raiva no olhar. No alto de seus onze anos ela olha para quem a contraria, não importa se criança ou adulto, e jura o cidadão de morte com uma facilidade que eu jamais vi. Mas isto não me assusta, pois “os cães ladram e a caravana passa”. Não creio que ela vai matar ninguém, mas ela ganha ódio de alguém com a mesma facilidade com que se gosta de chocolate, executando os mais variados planos para prejudicar seus desafetos que coloca muitos vilões e vilãs dos contos consagrados no chinelo.
Não sei se em 2012, mas o mundo acabará com certeza. E as profecias maias combinada ao Apocalipse da Holly Bible parecem-me o cenário mais adequado. Porém o mundo sempre renascerá, mesmo que seja das cinzas. Só temos que tomar cuidado para que não surja um mundo de rapina, chefiado por adultos quadrados e caretas, que foram jovens transviados e inconseqüentes, mas sem um pinguinho de caráter e bom senso, coisas difíceis de ver nas crianças de hoje em dia.

Paz e bem!

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